Museu da Fundação D. João VI: um longo e tortuoso caminho

Projeto de revitalização do espaço cultural esbarra na burocracia e nas incertezas da política, mas avança
sábado, 18 de maio de 2019
por Ana Borges (ana.borges@avozdaserra.com.br)
O prédio da Fundação Dom João VI: futuro museu (Arquivo AVS)
O prédio da Fundação Dom João VI: futuro museu (Arquivo AVS)

Pouco se ouve falar, aparentemente nada está sendo feito, no entanto, o projeto do Museu da Fundação D. João VI não está parado. Pelo contrário, está caminhando, num processo lento, é verdade, em virtude de inúmeros procedimentos exigidos pela burocracia para se criar um museu. Principalmente porque ele funcionará dentro de um prédio tombado pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), acompanhado pelo Inepac (Instituto Estadual do Patrimônio Cultural), construído há mais de 150 anos. É, sem dúvida, uma empreitada complicada. Como explicou o presidente da Fundação, Luiz Fernando Folly.

 “A Fundação não parou o projeto do museu, muito menos desistiu, como alguns podem pensar. Seguimos firmes no propósito da criação dessa entidade e estamos focados nesse objetivo. Portanto, reafirmo que estamos empenhados e trabalhando com afinco. A questão que precisa vir à tona para conhecimento do público, é que além dos entraves que encontramos em todo o processo que temos que percorrer, aliado ao tamanho da burocracia e exigências cartoriais, tudo é muito lento e temos que ter uma paciência infinita”, enfatizou.  

Agora, para dificultar ainda mais os procedimentos em algumas frentes, um fator preocupante veio se somar ao que ele chama de entraves: a situação da política nacional, que deixa em suspenso uma série de tomadas de decisão em relação a todo e qualquer projeto cultural.

“Esse panorama incerto nos levou a algumas mudanças de táticas nesse percurso. A cultura brasileira está vivendo um momento difícil e até um reenquadramento de ideias, no geral, mas mesmo assim,  continuamos determinados a levar a cabo o compromisso de criar o museu da Fundação”, reiterou.

Folly explica que há três frentes de trabalho. Uma delas é conseguir empréstimos que o município possa vir a receber para compor o museu. De acordo com ele, Friburgo tem pouquíssimas peças disponíveis dentro dos entes municipais públicos e a ideia é trabalhar com empréstimos respaldados pelo Ibram (Instituto Brasileiro de Museus), com o qual está em negociação há algum tempo.

“Gostaríamos de contar também com a parceria do Museu Imperial de Petrópolis, do Museu Histórico Nacional e do Museu da República (do Catete/Rio). Neste primeiro momento estamos tratando da parte documental para então tentar fechar esse empréstimo no regime de comodato, com prazos longos. Pretendemos trazer peças que tenham significado para a nossa história. Isso envolve os povos indígenas, os africanos, as colônias, personagens que povoaram essa região e deram origem ao que somos hoje. Não possuímos material suficiente para montar nosso museu. O que temos, por enquanto, são algumas peças, além de documentos e arquivos, no Rio, que são do interesse do município em trabalhar no futuro”.  

O custo de um museu

A questão do custo é complexa, segundo o presidente da Fundação. Quando uma entidade assume um acervo ela tem que se responsabilizar até pelos seguros. “Neste momento estamos justamente tratando disso também, para tentar ‘suavizar’ digamos assim, uma responsabilidade dessa natureza, para fazer jus a receber essas peças. Outro caminho que estamos tomando é sobre a questão das obras do Casarão. Não posso deixar de comentar o fechamento de seis museus de pequeno e médio porte, no Rio de Janeiro, ano passado. Apesar das dificuldades para criar um museu, mais difícil ainda é mantê-lo aberto, isto é, funcionando. A manutenção é o maior problema. Daí o fechamento dessas entidades, como o que está em vias de ocorrer com pelo dois museus em Minas Gerais: o de Santanna, em Tiradentes, e do Oratório, em Ouro Preto”, comentou, reafirmando que o custo de manter um museu é muito alto.

Por outro lado, há exceções, ainda que raras. Folly lembra que o único museu público de que se tem notícia de que dá lucro, no Brasil, é o Museu Imperial, de Petrópolis. “O nível de visitação lá é expressivo. Passam mais de 400 mil pessoas, por ano, sendo que a população do município é de 305 mil habitantes. Ele é tão rentável que até ajuda a manter outros museus”.

“Ele conta com uma Sociedade de Amigos que soube operacionalizar outros atrativos, como um restaurante e lojinhas de souvenirs, que gera também um ótimo lucro. Há pouco tempo esse grupo de pessoas que compõem a sociedade comprou quatro peças, caras, em leilões fora do país e doaram para o museu. Além disso, ainda é beneficiada pela proximidade com o Rio. Quer dizer, Petrópolis oferece uma série de razões para se visitar a cidade”.

Enquanto isso…

 A Fundação Dom João VI também conta com uma Sociedade de Amigos, que custeou a reforma do telhado do casarão, uma obra de ponta, absolutamente necessária e cara.

“Essa obra custou cerca de R$ 170 mil e já foi concluída. Toda a reforma desta sede segue um cronograma que visa, primeiramente, as obras estruturais, devido ao estado de deterioração em que se encontrava, de ruína, mesmo, por falta de manutenção, ao longo de décadas. Agora, estamos trabalhando num projeto macro, em conjunto com alguns outros entes, para tornar, de fato, a Fundação, autossuficiente. Não adianta criar um museu, 200 anos depois de D. João VI ter lançado a sua pedra fundamental, sem um plano viável de manutenção. Tanto que Friburgo não tem um museu público, o que temos são memoriais”, explica Folly.

“Não queremos construir algo dessa grandeza, com a leviandade de não pensar em como mantê-la. Não vamos criar um espaço de qualquer forma. Temos que ter um raciocínio lógico e contínuo, elaborando uma maneira de ter uma obra minimamente sustentável. Isso envolve um projeto minucioso e bem articulado. Por enquanto estamos mantendo um certo cuidado em divulgá-lo porque é uma negociação mais complexa, que envolve todo o entorno da Fundação. Desse estudo depende encontrar e definir as condições financeiras de garantir a manutenção, de maneira permanente”, adiantou Folly.

 

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