Nesta semana, os friburguenses perderam Augusto Muros, deixando uma tristeza e uma sensação de vazio para aqueles que, semanalmente, se acostumaram a visitar as páginas de A Voz da Serra para ler as inesquecíveis crônicas que ele, há trinta anos, escrevia.
Infelizmente, nós nos acostumamos a homenagear as pessoas somente quando elas partem, o que deixa sempre a sensação de que deveríamos ter dito algo antes, mas nunca o fizemos. É o que acontece com o Muros hoje.
Nunca disse isso aos meus sete fiéis leitores, mas, quando eu ainda nem sonhava em escrever (na verdade, já sonhava, mas só sonhava...), o Edil, um amigo em comum com o Muros, levou alguns textos meus para que ele comentasse. Imaginei que não daria em nada, já que ele já era um cronista de A Voz da Serra de longos anos, e eu... bem, eu era ninguém, situação em que ainda permaneço...
Fui surpreendido, então, quando recebi uma carta do Muros, em que ele não apenas comentou o que eu escrevera, mas escreveu uma verdadeira crônica. Isto aconteceu em 02/09/99. Guardo até hoje, com carinho, a carta, que tomo a liberdade de transmitir a vocês, pois não acho justo ler sozinho o que acredito ser uma de suas melhores crônicas, jamais publicada, e que fica de legado seu, como uma verdadeira aula aos que querem se aventurar no mundo das letras:
“Prezado Alzimar,
Nosso Mestre Fernando Sabino diz, com sabedoria, que crônica é tudo aquilo que não é outra coisa. Se é uma definição insólita para alguns puristas, nada pode ser mais definitivo e explicar melhor essas páginas que ocupam lugar de destaque para aqueles que procuram os jornais diariamente. De fato, se há um espaço pré-determinado, este será sempre o do cronista e, raramente, qualquer jornal, ou revista, comete a indelicadeza, com o leitor, é claro, de mudar de lugar a sua crônica. Quase sempre, procuramos primeiro por ela e, daí a importância que o cronista tem, e como fica ele disputado por editores de nossa imprensa. Recentemente, o poderoso O Globo roubou o nosso Zuenir Ventura do JB, depois de já ter levado o teu Mestre Veríssimo. O cronista é um voyeur do cotidiano, é quem enxerga o que o não-cronista não vê no bar que freqüenta, na avenida em que passa, ou no coletivo, ou no trabalho, ou numa simples discussão de rua. Costumo dizer – e defendi isso numa palestra para jovens no Anchieta – que os primeiros cronistas da história da nossa civilização foram aqueles homens da caverna que desenharam as caçadas da pré-história e que os estão sempre a descobrir. Eles não eram desenhistas, eram cronistas usando a linguagem da época para contar uma simples caça aos dinossauros. E acabamos desenvolvendo esta técnica de observação pela necessidade de gerarmos sempre uma crônica nova, a cada dia, a cada semana.
E tem que ser sempre nova e atraente, contada com jeito e com graça. Rubem Braga – outro mestre inigualável da crônica – reclamava disso: era sempre obrigado a escrever uma página nova a cada dia, enquanto seu amigo de boemia, Vinícius de Moraes, fez “Garota de Ipanema” e era cantada sempre, todos os dias, anos e anos a fio, sem que ninguém pedisse uma coisa diferente.
Você tem esse jeito observador do cotidiano e consegue contar bem as passagens, usando pessoas comuns e uma linguagem sem maiores rebuscamentos. Você fala de Sérgio Porto, e suas crônicas – que também podem ser pequenos contos – tem muito dele, que sempre usou textos curtos e também com finais indefinidos.
Você me pede uma opinião. Acho que escrever é sobretudo exercício, quanto mais escrevemos, melhor escrevemos, e acabamos por criar o nosso próprio estilo, que sempre encontrará defensores, seguidores, alguns que aplaudem, outros que não, porque é impossível – para quem tem a obrigação de produzir – ser brilhante todo o tempo. Muitas vezes, escrevemos uma crônica pelo simples compromisso inadiável de ter de escrevê-la, e, veja só, ela pode até sair-se muito bem. Como a preguiça é uma característica de quase todo escritor, essa obrigação é extremamente benéfica. Não fosse por ela, talvez nunca houvesse escrito os poucos livros que consegui publicar.
Acho que você deve continuar, e, num futuro, experimentar as páginas de nossos jornais friburguenses, que são bem mais lidos do que se possa imaginar. Vocês escreve bem, e comete uma boa linguagem. Siga em frente.
Procure-me sempre que quiser, é muito bom conversar com aqueles que comungam de prazeres semelhantes.
Forte abraço do
Muros.”
No lançamento de sua última obra “Um morto na carona”, eu estava dando aula na hora do evento, mas fiz questão de chegar, mesmo sendo um dos últimos, para dar-lhe um abraço e dizer o quanto haviam sido importante para mim as suas palavras há tanto tempo atrás.
Chamava-me sempre de “companheiro das letras”, honraria que jamais ousei repetir em público, por saber que estou a léguas de sua imensa cultura. Faço-o hoje para demonstrar o quanto ele era generoso ao adjetivar os amigos...
Que Deus conforte a família e a imensa quantidade de amigos que deixou!

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