Mulheres se destacam na agricultura familiar friburguense

Grupo de Salinas é exemplo da força da mulher no campo
quarta-feira, 09 de março de 2016
por Jornal A Voz da Serra
As irmãs Marilza e Silvânea lideram o grupo de mulheres produtoras da comunidade de Salinas (Foto: Miguel Schuenck Ribeiro/Rio Rural)
As irmãs Marilza e Silvânea lideram o grupo de mulheres produtoras da comunidade de Salinas (Foto: Miguel Schuenck Ribeiro/Rio Rural)

No mês dedicado as mulheres, um exemplo que elas também têm sido motivo de força e incremento à produção agrícola no estado. A cada dia, as mulheres conquistando mais espaços na agricultura familiar em Nova Friburgo, onde a produção rural é uma das maiores forças econômicas. Só no programa Rio Rural, elas já são 1.170 beneficiárias de incentivos financeiros diretos para adoção de boas práticas no campo. Mas é nos comitês gestores de microbacias que a participação das mulheres ganha maior destaque, com um terço de representação feminina.

Além do trabalho no dia a dia do campo, essas mulheres estão, junto com os demais grupos da comunidade, tomando as decisões que promovem a transformação das suas realidades. Em Nova Friburgo, município com maior número de organizações de produtores rurais, elas também ocupam posições de liderança, inclusive como presidentes de associações.

Na localidade de Salinas, no distrito de Campo do Coelho, um grupo formado por sete produtoras rurais – seis da mesma família e uma vizinha – está começando a chamar a atenção da comunidade, com um trabalho de sol a sol dedicado à lavoura e com a comercialização de seus produtos garantida no mercado do Rio de Janeiro.

No Sítio Santo Antônio, por exemplo, as irmãs Marilza, Silvânea e Helena Medeiros lideram o grupo também formado por Flávia Medeiros, Ana Maria da Silva, Marília Cabral e Raquel Pacheco. São elas que cuidam da roça, enquanto os maridos, filhos e sobrinhos ficam responsáveis pelo transporte e comercialização dos produtos da lavoura aos mercados de distribuição.

“Nossa família vive aqui há mais de 70 anos. Meus pais nos ensinaram o trabalho e pretendo transmitir o que aprendi para os meus filhos. Se eles quiserem outra profissão, tudo bem, mas eles precisam também aprender a amar essa terra”, disse Marilza.

Ela e as demais produtoras do grupo acordam todos os dias por volta das 5h30 antes do raiar do sol e não têm hora para terminar as atividades na lavoura. “Só depois que vejo todo o serviço do dia na plantação pronto consigo voltar para casa. Aí sim, vou cuidar da casa, do marido e dos filhos”, ressalta a irmã Silvânea.

Através do programa Rio Rural, desenvolvido pelo governo do estado, as produtoras adotaram práticas para obter produtos de qualidade, com técnicas de baixo custo, que não agridem o meio ambiente e exigem menor uso de mão de obra. Entre essas técnicas estão o uso da aveia preta para adubação verde e plantio direto, a irrigação localizada e fertirrigação, além da utilização de caldas alternativas para controle da mosca branca.

Na lavoura de tomate, as agricultoras empregam o programa "Tomatec", método desenvolvido pela Embrapa, que reduz quantidade de produtos químicos. “Quando começamos com as práticas do Rio Rural, alguns homens da família acharam que não ia dar certo. Hoje eles é que estão começando a adotá-las, depois que viram os nossos resultados”, comenta Marilza.

Após a visita do gerente do Banco Mundial, Maurízio Guadagni, ao seu sítio, semana passada, a produtora já pensa em elaborar, junto à equipe técnica do Rio Rural um subprojeto grupal para aquisição de maquinário e estufas.

Segundo o extensionista da Emater-Rio, Miguel Schuenck Ribeiro, as produtoras Marilza e Silvânea Medeiros foram beneficiadas pelo Programa Rio Rural com R$ 7 mil cada uma. Elas também fazem parte do projeto grupal da associação de produtores local.     

“As duas receberam incentivos do Rio Rural Emergencial e desde então adotaram práticas de adubação verde, plantio direto e preservação ambiental (proteção de nascente e recuperação de área de recarga). Vale ressaltar que a nascente do sítio dessa família abastece, com água potável, 34 famílias da microbacia”, destaca Miguel.

Outra conquista das agricultoras foi a comercialização dos alimentos em mercados institucionais. “Além das vendas para a Ceasa de Irajá, na capital fluminense, toda a família vende suas mercadorias para grandes redes de supermercados e também para o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) e o Programa de Aquisição de Alimentos. Elas estão virando exemplo para toda a comunidade”, informa o extensionista.

Presença feminina na agricultura familiar

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres representam um terço da força de trabalho ocupada na agricultura familiar. Além disso, a contribuição das mulheres na renda das famílias é maior no campo, com percentual de participação de 42,4%. Nas áreas urbanas a média de contribuição é de 40,7%.

Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), no primeiro trimestre da safra 2014/2015, pelo menos 160 mil mulheres produtoras deram entrada em pedidos de financiamento do Pronaf. Isso representa R$ 1,13 bilhão requisitado pelas trabalhadoras.

Além do Pronaf, outra ação do MDA dá mais autonomia para a mulher rural: o Programa Nacional de Documentação da Trabalhadora Rural (PNDTR). Por meio dele, são emitidos documentos civis e jurídicos, gratuitamente, para as agricultoras.

Foto da galeria
O sítio da família Medeiros está atraindo o interesse de muitos outros produtores por adotar boas práticas e obter bons resultados em sua produção (Foto: Miguel Schuenck Ribeiro/Rio Rural)
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