A porta fechada, o calendário que cai no chão espalhando os dias – a piada gera frutos, ela resolve arremessar o rádio relógio no chão, a fim de espatifar com as horas. Só consegue me deixar sem o despertador.
No processo, algumas ilusões básicas foram deixadas de lado. Livramo-nos dos lençóis, cavoucamos as paredes, escondidos debaixo da cama, buscamos o abismo – há uma clara confusão aqui, onde ela busca o nada, enquanto eu procuro por sentir algo mais do que os cortes que ela traz no braço – neste pandelírio, outra situação gravíssima: seja lá o que existe entre eles, o desenlace tem data marcada. É uma relação em contagem regressiva, destinada a não dar certo.
Nesta dança, ignoramos o Festival de Inverno – com poucas exceções, como o cover dos Beatles e aquele trio onde o violino mais me parecia uma rabeca, nada vi. Nem estava interessado – chegamos a separar uma pequena colcha e uma manta para ficarmos na grama, assistindo aos espetáculos à beira do lago, mas não fizemos nada disso – ao contrário, vimos tevê, nos catamos sob as cobertas e, diversas vezes, quase caímos da cama.
Até que ela sumiu – outra confusão, outro circuito – a noite rompida dentro de um carro, outras mãos, outros abraços – ela, que havia me ajudado na mudança, fora substituída, esticada – eu continuei dançando uma música que não era a minha.
O seu retorno coube à esta esfera das coisas tortas, que não se encaixam em nosso status quo, mas que padecem da insistência – outra coisa: há de se admitir que era melhor assim, que um não pode oferecer o que o outro precisa.
Restam as dúvidas, os acertos —
O universo se compromete de tal maneira com a realidade, que nada é por acaso.
Perdoem esta nova série de nadas que são muitos.
Aproveito este espaço, destrambelho através das linhas e me desconcerto, porque seria um pecado falar de outra coisa, mas seria ainda mais danoso dar nomes aos bois, ralhar com o meu sangue (e o dela) – resta a necessidade de uma nova mudança; quando busco mais este mapa, quando do ponto A ao B o caminho já não parece mais tão claro assim, resta a incerteza.
E a vontade de ir embora.
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