Lumiar: riquezas históricas, belezas naturais e desenvolvimento

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
por Jornal A Voz da Serra
Lumiar: riquezas históricas, belezas naturais e desenvolvimento
Lumiar: riquezas históricas, belezas naturais e desenvolvimento

Lívia Assad

O quinto distrito de Nova Friburgo tem hoje uma das maiores atividades turísticas da cidade. A canção “Lumiar”, composta por Beto Guedes em 1978, ajudou o distrito, que era completamente isolado, a se integrar ao restante do município e chamou atenção dos visitantes para seus atrativos. Segundo moradores e conhecedores da história de Lumiar, o sucesso da música produziu muitas mudanças na vida da comunidade, com um aumento significativo no número de turistas e a consequente melhoria na infraestrutura e nos serviços do local.

Manoel Antônio Spitz, pesquisador de História e professor de dois colégios das redes estadual e municipal em Lumiar, há anos vem estudando as raízes e a evolução do distrito. Ele explica que, antes de 1978, Lumiar era visitado por poucas pessoas de fora. Com o lançamento da música, surgiu um interesse maior dos jovens em conhecer o novo “point”.

“O que aconteceu em Lumiar foi algo parecido com a brincadeira de telefone sem fio. Alguém descobriu as matas e cachoeiras, gostou e espalhou para outras pessoas. Muitos turistas se apaixonaram tanto que fixaram moradia. O lugar se transformou em uma alternativa de vida”, analisa o professor.

Liberino Klein e sua esposa, Noêmia Brust Klein, foram os donos da primeira pensão de Lumiar, aberta em 1969 e que funciona até hoje, sob administração da filha do casal, Irene. Ela revela que, durante os primeiros anos, a pensão passava até três meses sem receber sequer um hóspede. Na opinião da proprietária, o cenário mudou com a transformação do distrito em importante destino turístico.

“Antigamente, a pousada atendia a poucos viajantes comerciais que se aventuravam na região. Hoje temos 16 quartos, com diárias que custam a partir de 40 reais”, assinala.

Junto com o sucesso da música de Beto Guedes, iniciou-se a migração de uma grande comunidade hippie para o local. Também atraídos pela ideia de um ambiente calmo, afastado dos centros urbanos, os hippies visitaram e viveram em Lumiar até 1986. A partir daí, já havia luz elétrica e estrada asfaltada, o que espantou a comunidade alternativa e encantou ainda mais os turistas de classe média.

Manoel Spitz relata que os hippies enfrentaram resistência da população. Ele explica que os moradores se sentiam incomodados com os acampamentos em espaços públicos e a incidência de roubos na região.

“Os hippies vieram para cá atraídos pela ideia de um lugar em que se podia ter total contato com a natureza. No entanto, isso trouxe problemas, pois, naquela época, os campings não eram pagos. Eles ficavam aqui por longos períodos, às vezes até dormindo na pracinha ou no meio da rua. Quando o dinheiro acabava, roubavam a comunidade”, afirma o professor.

José Blaudt, de 76 anos, foi dono de uma padaria em Lumiar no período do estouro da canção. Ele confirma que era comum os hippies cometerem furtos.

“Uma vez eu percebi que faltavam dez galões de vinhos no meu estabelecimento. Perguntei ao funcionário se, por acaso, os produtos tinham sido vendidos, e ele disse que não. Fui até a pracinha e, quando vi, lá estava um grupo de alternativos com os meus galões. Na mesma hora, exigi que me devolvessem”, contou ele.

Tanto tempo depois do lançamento da música, Lumiar é um dos principais pontos turísticos de Nova Friburgo, de acordo com pesquisa do Sebrae. Atividades relacionadas ao meio ambiente como pesca, banhos de cachoeira e esportes radicais são os principais atrativos para os turistas. A Pedra Riscada e as famosas festas da região também levam visitantes ao distrito. Após a construção da Estrada Serramar, ligando Lumiar a Casimiro de Abreu, Nova Friburgo, em especial Lumiar e São Pedro da Serra, tem recebido muitos turistas de Búzios, Macaé e Cabo Frio.

Apesar dos inegáveis avanços que o distrito alcançou graças ao capital proveniente do turismo, um dos problemas que ainda enfrenta é a falta de hospital. Há apenas um posto de saúde, que não funciona nos fins de semana e tem horários de atendimento insuficientes nos dias úteis.

Morador da região, o estudante universitário Marcus Vinicius Spitz dos Santos, de 21 anos, relata que as condições de saúde deixam muito a desejar.

“O posto realiza atendimentos básicos, de baixa complexidade. Por exemplo, há acompanhamento pré-natal para as grávidas e um dentista que oferece consultas à comunidade. Mas, se você tiver uma emergência, ou algo mais sério, o jeito é se transferir para o Hospital Raul Sertã, que fica no Centro. O problema é percorrer os 30 quilômetros de distância até lá sem uma ambulância bem equipada. Considero um risco para quem mora aqui”, enfatiza o estudante.

Além da questão da saúde, a escassez de ônibus é frequentemente motivo de queixa por parte dos moradores. Pelo fato de o mercado de trabalho ser restrito na localidade, a maioria das pessoas trabalha no Centro de Nova Friburgo. O número de veículos, segundo os moradores, é bastante limitado. Durante a semana, o intervalo do transporte varia entre meia hora e uma hora, dependendo do turno. Nos fins de semana, as alternativas de horário se reduzem ainda mais.

O professor Manoel Spitz considera a urbanização vivida por Lumiar um processo previsível no mundo globalizado. Ele ressalta que, através dos novos meios de comunicação, o encurtamento das distâncias é natural, e que a música de Beto Guedes foi um instrumento que serviu apenas para antecipar as transformações.

Tantas mudanças não agradam a todo mundo. O dono da antiga padaria, José Blaudt, relembra o fim da década de 1970 com saudades e diz que preferia a vida de antigamente, apesar das dificuldades estruturais de que o distrito sofria.

“Naquela época, não tínhamos energia elétrica. Todo o processo de produção de pães funcionava manualmente. Mesmo assim, acho que o dia a dia dos moradores era melhor. Por exemplo, hoje a gente não pode reformar nem a nossa própria casa. Todo o território se tornou área de preservação ambiental e isso faz com que a gente sinta que Lumiar não é mais nosso. Que progresso é esse?”, questiona ele.

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