Literatura - O menino-rei

sexta-feira, 03 de outubro de 2014
por Jornal A Voz da Serra

João Clemente

 A história da humanidade nos mostrou muitos exemplos de meninos-reis.

Assim como a ficção.

O que estes jovens soberanos fizeram com seus súditos e seus territórios variou tanto como variam as particularidades de cada alma humana.

Alguns meninos-reis, valendo-se de seu poder soberano, deram livre curso a sua perversidade. Outros, por outro lado, quem sabe desejaram compartilhar toda a riqueza do seu reino com os súditos. 

Dois casos que, no fundo, são somente versões simplificadas e diretas daquilo que fazem os homens crescidos—que desenvolveram ao longo da vida a habilidade cada vez mais sofisticada de convencer a si mesmos e aos outros das razões por trás de suas ações.

Meninos-reis choraram por dentro com medo do barulho dos canhões e por saudades da força do pai e do aconchego da mãe.

Mas o menino-rei de que eu vou falar aqui não é um personagem histórico nem de ficção. Ele é de nosso tempo, e ocupa um trono que não foi herdado por ele devido à falta de uma opção mais adulta para tal—aliás, ele nem sequer herdou seu trono: caso raro na história, talvez inédito até alguns anos atrás, este rei ergueu seu império com suas próprias forças. E também, ao contrário da tradição cultural europeia, o menino tem para si as rédeas do governo. Seus súditos não foram obrigados a segui-lo; eles assim escolheram—afinal, além de esplêndido estrategista, o rei é justo e vanguardista a ponto de realizar votações, e considera todos os membros de sua aliança como preciosos conselheiros. 

O rei tem 13 anos. Seu domínio se encontra no jogo online de estratégia Fields, que atualmente conta com 250 mil jogadores em todo o mundo. Nesse ambiente de batalha e cooperação, no qual é preciso cultivar a terra e ter domínio sobre ela, não se sobrevive sem formar alianças. A de nosso rei-menino conta com 11 pessoas, e trata-se de uma coleção curiosa de pessoas, incluindo um bancário, uma professora de inglês, uma secretária de dentista—e, creiam, não somente um, mas dois instrutores de paraquedismo, cada um de uma região diferente do Brasil, que jamais haviam trocado palavra fora do jogo. Formou-se assim, entre trocas comerciais e o desenvolvimento de estratégias de defesa e ataque, uma amizade entre estes indivíduos, e na sala de bate-papo da aliança irrompem desabafos do dia a dia dos empregos, conselhos musicais e qualquer assunto aleatório, como numa mesa de bar.

Eis que, um belo dia, nosso menino-rei pergunta a seus súditos nada menos que... como conquistar o coração da menina da escola. Ora, esta não é nenhuma típica angústia adolescente pós-moderna—ao contrário, talvez seja uns dos conselhos mais frequentemente requisitados da história da humanidade. O que o menino-rei queria saber era o que fazer para amar e ser amado. Maquiavel até deu conselhos desta natureza para o Príncipe, no que diz respeito a ser benquisto pela população, mas nunca chegou a esse nível. A aliança, bem-intencionada, deu os conselhos que soube dar, mas, convenhamos, em menor ou maior grau, com mais experiência ou menos, súditos ou reis, neste campo todos nós andamos sobre gelo. 

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