Liberdade cristã na perspectiva luterana

A coluna do pastor luterano Gerson Acker
sexta-feira, 22 de setembro de 2017
por Gerson Acker
Liberdade cristã na perspectiva luterana

As pessoas se surpreenderem com o fato da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) não possuir nenhuma listagem de proibições comportamentais, como é comum em algumas igrejas evangélicas. Não há na doutrina luterana prescrições sobre uso de bebidas alcoólicas, lugares que o cristão possa ou não frequentar, tipo de roupa ou corte de cabelo que se deva ou não usar. Lutero afirma que o ser humano é salvo por graça e fé e não por obras que se valem de méritos. Por isso, não são necessárias proibições e imposição de regras de comportamento que tenham por objetivo a obtenção da salvação, já que esta é alcançada por graça, mediante a fé.

Isto não significa, porém, que exista um “vale tudo”. A IECLB estabelece o princípio da liberdade com responsabilidade que tem sua fonte nos dez mandamentos. Liberdade com responsabilidade significa viver a sua fé diante de Deus, diante do próximo e diante da criação sem nenhuma tutela eclesiástica. A igreja não é detetive para ficar vigiando e punindo quem deixa de cumprir regras. Ao contrário, a igreja é o espaço em que acontece orientação para a vida, partilha de experiências, diálogo sobre situações e problemas do cotidiano e apoio em momentos de crise, dúvidas e dificuldades.

Segundo Lutero, o cristão não vive em si mesmo, mas em Cristo, pela fé; e em seu próximo, pelo amor. Pela fé é levado para o alto, acima de si mesmo, justificado por Deus; por outro lado, o amor desce-o abaixo de si, até o próximo, para o serviço. Ele afirma que a pessoa é livre quando vive uma vida altruísta, aberta a Deus em confiança e ao próximo em amor. Essa liberdade não induz as pessoas cristãs a viver em apatia ou ociosas. Confiar em Deus como verdadeiro e único Deus, como admoesta o primeiro mandamento se cumpre pela fé, os demais mandamentos são cumpridos pela fé e na execução de boas obras de amor. Deus não necessita das boas obras, mas o próximo necessita!

Lutero afirma em seu livro chamado “Da liberdade cristã” que “um cristão é senhor livre sobre todas as coisas e não sujeito a ninguém”. Simultaneamente, afirma também que “um cristão é servidor de todas as coisas e sujeito a todos”. O reformador afirma com estas palavras que, de um lado, as pessoas são livres pela fé e, por outro lado, são servas pelo amor. A partir do princípio da liberdade não é possível estabelecer normas absolutas, pois os tempos e as circunstâncias humanas mudam a todo tempo. A moral e a ética assumem características distintas de tempos em tempos, muito embora obedeçam a princípios gerais.

Portanto, em nenhum momento os fiéis luteranos ficam desresponsabilizados pelas suas decisões e atitudes na vida – Há que se ter responsabilidade e coragem para assumir as consequências de suas escolhas. O que determina um gesto ou uma atitude são os valores do evangelho e a forma como cada fiel interpreta estes valores para o seu dia a dia, para a sua vida pessoal e familiar na perspectiva do amor ao próximo.

Pensando assim, de forma tão subjetiva, talvez fosse mais simples e fácil criar uma lista de proibições. A Igreja Luterana não pensa assim. Por isso, orienta os membros a partir da sagrada escritura. O desafio é viver a sagrada escritura na vida, não de forma fundamentalista (que nos aprisiona numa bolha), mas tendo uma fé inteligente que nos leve a testemunhar nossa fé com palavras e ações. Nosso desejo é que as pessoas cristãs tenham uma fé inteligente capaz de ajudá-las a ter discernimento ético e moral diante das inúmeras situações do cotidiano.

O ser humano libertado, por se comprometer com a fé em Jesus Cristo, vive neste mundo enfrentando todas as forças que produzem a morte e promovendo a vida “em abundância” para si mesmo e para o seu próximo. A pessoa cristã quando vive de maneira coerente e inteligente a sua fé, não transgride a liberdade do próximo e também não carece seguir normas impostas para ser considerada mais ou menos cristã. Este é o convite do próprio Cristo quando nos liberta do legalismo frio e sem sentido (como nos testemunham inúmeras passagens bíblicas) e apresenta o evangelho que liberta e promove vida.

 

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