Lendas do samba

Jamelão: o trovão da Mangueira
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019
por Erick Bernardes*
Lendas do samba

Ontem assisti na tevê uma cena linda que me fez lembrar daqueles carnavais de duas ou mais décadas passadas. Impossível desvincular imagem e som (em especial o som) da memória emocional, não é mesmo? Principalmente, porque o mito negro, bem ali à nossa frente, oferecia o timbre grave vocal na sua melhor forma, e encontrava-se rodeado por um séquito de homens e mulheres com as almas extasiadas.

Consigo me recordar muito bem de como Jamelão lançava no ar a voz de trovão digna de um Xangô carioca. Embora se irritasse e pedisse para não ser chamado de “puxador de samba-enredo”, inevitável ao artista puxar os ânimos da multidão com algum tipo de energia desconhecida. “Puxador não, meu rapaz, não me chame assim, pois sou intérprete”, ele emendava o comentário do jovem jornalista que ficou sem graça por causa da reprimenda. Mas o artista do samba é da comunidade e nasceu pra isso. Cantar e elevar o enredo da sua escola à infinita potência fez dele um “puxador” na língua do povo. Seu nome de batismo, José Bispo Clementino dos Santos, ninguém conhecia, mas Jamelão e Mangueira revelaram-se nomes indissociáveis. Sem contar que eram tempos de reconhecimentos para a música popular. Muita gente de talento surgindo quando ele se destacou.

Sabe-se que, na infância, o saudoso cantor e compositor recebera o apelido de Saruê (designativo de gambá), porque fugia dos banhos de água fria. O cantor responsabilizara o amigo Gradim, apelido do sambista Lauro Santos, por tê-lo permitido conhecer a escola Verde e Rosa. Antes de cantar, esse legítimo representante do carnaval carioca abraçava a arte de tocar cavaquinho e tamborim, com isso, chegava também o seu som aos redutos da velha malandragem do samba.

Não se sabe quem o apelidou de Jamelão; mais provável que tenha resultado das brincadeiras entre amigos, de quando o cantor se apresentava nos eventos culturais no Rio de Janeiro. Começou a ficar conhecido de fato nas rodas de gafieira e no programa de calouros da Rádio Tupi do Rio de Janeiro, para só depois, em 1949, vir a ser intérprete oficial da comunidade mangueirense. Um dado singular não é? Nascido em 1913, estrelou espetáculo com os melhores do mundo antes de oficializar-se como cantor de escola de samba.

Aliás, ele mesmo tornou-se ícone da música brasileira. Registros comprovam que, na década de 70, o sambista chegou a se apresentar no castelo de Coberville, na França. E, realmente, este carioca simples de São Cristóvão mostrou-se figura importante na festa de Assis Chateaubriand na Europa. Certa vez, compôs coro vocal para o cantor Francisco Alves, chegando até a assumir o lugar deste último, em uma daquelas noites cujas estrelas do firmamento jogam luz sobre o artista sem nem ele sequer perceber. Surpresa para alguns, novidade nenhuma a outros, fato inegável é que aquele menino Saruê impôs respeito ao mundo do samba.

Infelizmente, no quesito saúde o Trovão da Mangueira padecia de problemas crônicos no aparelho respiratório e, não poucas vezes, deu entrada em hospitais devido às crises pulmonares. Para piorar, o cantor sofreu dois AVCs seríssimos que o debilitaram ainda mais. Contudo, isso não impediu o mestre de alcançar a fama com músicas como: Leviana, Não Põe a Mão, Matriz ou Filial, Fechei a Porta, Exaltação à Mangueira, Eu Agora Sou Feliz, Folha Morta, O Samba É Bom Assim e Quem Samba Fica.

Um dos maiores orgulhos de Jamelão deve-se ao fato de ter sido agraciado, pelas mãos do presidente Fernando Henrique Cardoso, com a medalha da Ordem do Mérito Cultural, em início de 2001. O diabetes e a hipertensão sanguínea também o assombraram durante a carreira, embora enfermidade alguma tenha retirado dele a maestria de cantar — e o filho querido de São Cristóvão nunca demonstrou tristeza. Faleceu no Rio de Janeiro, em 14 de junho de 2008, em decorrência das complicações pulmonares que tanto o atormentaram.

O enterro contou com gente dos mais variados lugares à Cidade Maravilhosa. Todos aqueles que se dirigiram ao Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, eram unânimes quanto ao respeito dedicado ao Trovão da Mangueira. Reverência notável, especialmente quando Emílio Santiago, Zeca Pagodinho, Elymar Santos, Monarco (dentre outros) cantaram a oração da Ave Maria. Reconhecimento póstumo? De modo algum, consolidação do sucesso. Mas, vale ressaltar, não é com tristeza que o intérprete mangueirense passou a ser lembrado. Claro que não! A paixão pelo carnaval alimentou o mestre com energia do bem durante toda a sua vida. Evitava sentimentalismos excessivos, personalidade forte, sabia bem se posicionar.

Talvez por isso, o saudoso Jamelão em nada tenha feito lembrar a doçura da fruta que lhe rendeu o nome artístico. “Azedo sim, claro. Há momentos na vida cuja paciência tá mais pra veneno que qualidade”, afirmava o ícone da Verde e Rosa. E não é que o puxador tinha mesmo razão? Uma aula de vida e convivência ele me fez lembrar, pois doçura excessiva no homem, por vezes, mela demais as relações e nos faz desejar ter sido mais objetivos com os outros. Salve, Salve a memória do imponente Jamelão!

* Erick Bernardes (foto) é mestre em Estudos literários pelo Programa de Pós-graduação em Letras e Linguística (PPLIN), da Faculdade de Formação de Professores (FFP), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). É professor universitário, crítico literário, cronista de  jornais fluminenses e autor do livro Panapaná: contos sombrios. Trabalha em coautoria de livros dedicados à área da educação. E-mail: ergalharti@hotmail.com Visite o site: https://escritorerick.weebly.com/ Celular e whatsApp: (21) 98571-9114.

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