Hora de andar

Por Carlos Emerson Junior (*)
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
por Jornal A Voz da Serra

Corria o ano de 2006 e lá vinha eu do Rio em direção a Nova Friburgo, guiando o meu velho Uno. Como era uma sexta-feira, resolvi fugir do transito infernal da Ponte e fui pela RJ-122, na época uma rodovia perigosa, sem sinalização, acostamento, asfalto precário e o mato invadindo as pistas.

Confesso que sempre corri em estradas, mesmo com carros de baixa cilindrada. Só que naquela noite, por algum motivo, premonição, sexto sentido ou proteção divina, antes de fazer uma curva fechada tirei o pé do acelerador, reduzindo bastante a velocidade. Foi o que me salvou! Dei de cara com um enorme caminhão de refrigerantes tombado nas duas pistas, com sua carga toda espalhada.

Mal tive espaço para frear. Alguns moradores tentavam nos avisar do perigo, enquanto outros socorriam o motorista. Consegui passar com o carro por dentro do mato e fui procurar um local com sinal de celular para avisar a polícia. Enquanto isso, alertava todos os carros que vinham em sentido contrário para que tomassem cuidado.

Naquela hora me dei conta que desde 1996 fazia aquele trajeto quase que semanalmente, sem uma batida sequer, um pneu furado ou uma mísera pane elétrica. Comentei com minha mulher que havíamos esgotado nossa cota de sorte e estatisticamente não passávamos de uma completa aberração. Resoluto, bradei: “A partir da semana que vem, nós vamos de ônibus!”.

Dito e feito, a primeira viagem durou bem umas quatro horas mas li, conversei, ouvi minhas músicas, dormi que foi uma beleza e cheguei em casa relaxado. Sem nenhuma saudade, esqueci completamente o cansaço e o stress quando estava atrás do volante nos engarrafamentos colossais de todas as sextas-feiras.

Em Nova Friburgo o carro não faz falta alguma. Como moro bem pertinho do Centro, quase não uso o ônibus, substituído com prazer por uma caminhada. Para trajetos mais longos vou de táxi mesmo. Quando me dei conta de que no Rio não tinha nenhuma necessidade do carro para me locomover dentro da cidade, a decisão foi tomada: não preciso de um automóvel.

Transferi o veículo para uma de minhas filhas e do dia para a noite fiquei livre de seguros, vistorias, IPVAs, flanelinhas, gasolina, oficinas, trocas de pneus furados, panes, reboques, roubos, furtos, batidas, lavagens, lubrificação... nossa, a lista é interminável! De curiosidade fiz a conta e na ponta do lápis comprovei o que já sentia no bolso: sai muito mais barato usar um táxi. De ônibus ou a pé, então, nem se fala!

Ao contrário do que a propaganda louva, liberdade é não ter carro!

O futuro não reserva lugar para o transporte individual nas cidades, mesmo as de pequeno porte. O automóvel é barulhento, poluente, inseguro e ultrapassado. É um meio de transporte do século XX que vai conhecer o mesmo ocaso das carruagens do século XIX. As grandes capitais europeias e americanas já proíbem ou taxam a sua circulação nos seus centros urbanos. Com o grande investimento que vem sendo feito no transporte público de massa, eles sumirão da paisagem urbana.

Em Nova Friburgo há muito a ser feito. Nosso sistema de transporte público deixa a desejar e não é barato. As linhas são mal distribuídas e a grade de horários é confusa e mal divulgada. Para piorar, inexplicavelmente os ônibus, em sua grande maioria, só circulam até as onze horas da noite, o que é imperdoável numa cidade turística.

Os táxis também são caros e somente há pouco tempo o serviço de atendimento 24 horas por rádio foi implantado. Apesar de essenciais no nosso sistema pela deficiência dos ônibus, devemos ter em mente que eles não são sequer uma alternativa ao transporte de massa. No entanto, funcionam a contento, isso é inegável.

Como já comentei em outra crônica, a ideia de um VLT (Veículo Leve de Transporte) no centro da cidade pode ser viável, desde que acompanhado de uma total reformulação do transporte público de Nova Friburgo, incluindo aí, as ciclovias. Aliás, o desenvolvimento do município depende diretamente da qualidade e eficiência desse serviço essencial.

Voltando ao velho conceito do automóvel, atualmente estou tão distante desse meio de transporte que sequer me dei ao trabalho de renovar a Carteira de Habilitação. Desde garoto sempre mantive um olho aberto para o futuro e sei muito bem que um novo meio de transporte, possivelmente barato e sustentável, deve encantar nossos descendentes. Mas, enquanto essa maravilha não chega, temos a obrigação de pensar com carinho na possibilidade de colaborar com a qualidade de vida de nossas cidades.

Que tal voltarmos a andar?

(*) - carlosemersonjr@gmail.com

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