Histórias Verídicas - 14 de março

Por Mario de Moraes
sexta-feira, 13 de março de 2009
por Jornal A Voz da Serra

DE LÁ PRA CÁ

Um estudioso da música popular brasileira fez um interessante levantamento das letras de canções através dos anos e enviou pelo meu e-mail (moraes sonia@yahoo.com.br). A evolução, para pior, é de estarrecer. Peço desculpas aos meus leitores mais pudicos, mas a letra final, um rap da periferia, foi cantada nos mais populares programas da TV, com a plateia aplaudindo alucinada.

Década de 20. O rapaz de terno, colete e cravo na lapela canta embaixo da janela da mulher amada:

“Tão longe, de mim distante, onde irá, onde irá teu pensamento? / Quisera saber agora se esqueceste, se esqueceste o juramento. / Sabe se és constante, se ainda é meu teu pensamento / e minh’alma toda de fora, da saudade, agro tormento”.

Década de 30. Ele, de terno branco e chapéu de palha, embaixo do sobrado em que ela mora, canta suspiroso:

“Ó linda imagem de mulher que me seduz! / Ah, se eu pudesse tu estarias num altar! / És a rainha dos meus sonhos, és a luz, / És malandrinha, não precisas trabalhar”.

Década de 40. Ele, de terno cinza e chapéu panamá, em frente à vila onde mora a amada, canta apaixonado :

“Tu és divina e graciosa, estátua majestosa! / Do amor, por Deus esculturada. / És formada com o ardor / da alma da mais linda flor, de mais ativo olor, / que na vida és preferida pelo beija-flor...”

Década de 50. Ele ajeita seu relógio Pateck Philip na algibeira, escreve para a Rádio Nacional e manda oferecer a ela esta linda música:

“A deusa da minha rua, / tem os olhos onde a Lua, / costuma se embriagar. / Nos seus olhos eu suponho, / que o sol num dourado sonho, / vai claridade buscar”.

Década de 60. Ele aparece na casa dela com um compacto simples embaixo do braço, ajeita a calça Lee e coloca na vitrola uma música papo firme:

“Nem mesmo o céu, nem as estrelas, / nem mesmo o mar e o infinito / não é maior que o meu amor, / nem mais bonito. / Me desespero a procurar / alguma forma de lhe falar, / como é grande o meu amor por você...”

Década de 70. Ele chega em seu fusca com tala larga, sacode o cabelão, abre a porta pra mina entrar e bota uma melô joia no toca-fitas:

“Foi assim, como ver o mar, / a primeira vez que os meus olhos / se viram no teu olhar... / Quando eu mergulhei no azul do mar, / sabia que era amor / e vinha pra ficar...”

Década de 80. Ele telefona pra ela e deixa rolar:

“Fonte de mel, nuns olhos de gueixa, Kabuki, máscara. / Choque entre o azul e o cacho de acácias, / luz das acácias, você é mãe do Sol. / Linda...”

Década de 90. Ele liga pra ela e deixa gravada uma música na secretária eletrônica:

“Bem que se quis, depois de tudo ainda ser feliz. / Mas já não há caminhos pra voltar. / E o que é que a vida fez da nossa vida? / O que é que a gente não faz por amor?”

Em 2001. Ele captura pela internet um batidão legal e manda pra ela por e-mail:

“Tchutchuca! Vem aqui com o teu Tigrão. / Vou te jogar na cama e te dar muita pressão! / Eu vou passar cerol na mão, vou sim, vou sim! / Eu vou te cortar na mão! Vou sim, vou sim! / Vou aparar pela rabiola! Vou sim, vou sim!”

Em 2002. Ele para o chevettinho 81 rebaixado e, no mais alto volume, solta o som:

“Abre as pernas, faz beicinho, vou morder o seu grelinho.../ Vai Serginho, vai Serginho... / Vem minina, num si ispanta, / vô gozá na tua garganta...”

Não é em mim que devem atirar pedras!

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