Governo Sérgio Xavier fortalece a Economia Solidária

quarta-feira, 31 de outubro de 2012
por Jornal A Voz da Serra
Governo Sérgio Xavier fortalece a Economia Solidária
Governo Sérgio Xavier fortalece a Economia Solidária

(SECOM) Após visita à Prefeitura do Rio de Janeiro, a fim de fazer novas parcerias para fortalecer o Programa de Economia Solidária no município de Nova Friburgo, a subsecretária de Trabalho, Dalva Brust, trouxe o secretário e o subsecretário de Desenvolvimento Econômico Solidário do Rio de Janeiro, Marcelo Henrique da Costa e Marco Moita, respectivamente, na tarde da última sexta-feira, 26, para palestrar e esclarecer as vertentes para os integrantes do programa.
“A palestra é para que as pessoas tivessem mais informações, ou reforçar as informações que elas tiveram nas duas últimas reuniões que tivemos sobre a importância da economia solidária, do comportamento solidário e do compromisso que as pessoas têm que ter com a própria noção de cidadania, porque é a partir desse respeito e desse compromisso que você passa a pensar e ter ações em conjuntos, porque quando você não tem essa visão, você pensa de uma forma muito individualista”, disse Dalva Brust.
 O secretário de Desenvolvimento Econômico Solidário da Prefeitura do Rio de Janeiro, Marcelo Henrique da Costa, que destacou a fibra da população friburguense e da vocação que o município tem para a Economia Solidária, esclareceu algumas dúvidas para fortalecer os objetivos da Economia Solidária e a sua importância para o município de Nova Friburgo.  

O que é Economia Solidária?
A Economia Solidária é um modelo de produção que trabalha com a autogestão, com a organização de grupos produtivos, com a produção, comercialização e consumo de forma coletiva, consciente e organizada, de forma democrática, respeitando o meio ambiente e a questão de gênero para pensar a distribuição coletiva desses ganhos. Economia Solidária é uma realidade no mundo hoje e cresce como modelo alternativo. Nós devemos repensar os modelos de desenvolver, distribuir e de consumir.
 
Qual a importância da Economia Solidária?
Hoje já estamos com quase 2% da economia brasileira na economia solidária. E ela pode se organizar em fábricas recuperadas, como em grupos rurais—que se organizam para distribuir a produção agrícola—, artesãos que comercializam seus produtos diretamente. Você tem muitas cadeias produtivas diferentes que podem ser beneficiadas e isso é importante, porque não apenas gera renda para população, como ajuda a criar uma consciência coletiva de pertencimento. No Rio de Janeiro, quando criamos grupos produtivos no Complexo do Alemão, pessoas que tinham vergonha de morar na favela, começam a gostar de morar e a pensar como se organizar para transformar o lugar onde moram. É a geração de renda que fortalece a ideia comunitária e que é muito importante.
 
Quais as dificuldades para a implantação da economia solidária? Como amenizar essas dificuldades?
As pessoas precisam entender que elas têm que participar em conjunto, que elas têm que criar redes; que a relação com o poder público é uma das relações, mas não a única, ainda mais quando estamos falando de comunidades menos favorecidas por uma história de clientelismo e assistencialismo que existe no país inteiro. Essa é uma das dificuldades. A outra é que nós temos alguns gargalos importantes como acesso a crédito, formação e capacitação permanente, seja na gestão, seja no produto. E acima de tudo, pensar em formas sustentáveis de comercialização permanente através de feiras ou de espaços fixos. Essas são dificuldades, esse é um gargalo e isso tem que ser superado. Por isso que é importante o apoio do poder público, dos bancos, das associações, das ONGs, das universidades para desenvolver, porque com essa economia, tendo força, toda a sociedade ganha.
 
Em que consistem as cooperativas? 
 São grupos produtivos de diversos tipos, em que as pessoas se juntam para produzir, para ganhar escala, para ganhar qualidade, para desenvolver tecnologias, melhorar a questão da logística e para baratear o preço do produto. Com isso, as pessoas vão fazendo trocas, vão se sentindo pertencentes ao conjunto maior de pessoas, o que é positivo. Então, hoje, nós temos milhares de grupos produtivos no Brasil que amadurecem. Alguns com 10, 15 pessoas, outros com mais de 100. E volto a dizer, Friburgo tem esse germe da economia solidária e acho que em breve teremos muitos grupos produtivos, que irão amadurecer, obtendo qualidade e que vão conseguir sobreviver do trabalho, da atividade econômica do grupo.
 
Existe alguma barreira para a criação das cooperativas?
No primeiro momento ela começa informal, no segundo momento ela vai encontrar mecanismos de legalização e acho que a prefeitura tem que criar mecanismos que facilitem isso e não que penalizem e dificultem. Hoje existe uma discussão nacional para a reformulação da lei da cooperativa para evitar as que são de mentira, que tem um patrão que explora as pessoas embaixo. A ideia da democracia, a ideia da autogestão, a ideia de que não tem um patrão que manda nos outros, é a lógica da economia solidária, ou seja, estão todos juntos produzindo. É um processo coletivo; comercializando; cada um tem uma especialidade, as pessoas têm habilidades diferentes e têm que ser colocadas a serviço desse grupo. 
 
Qual a relação da economia solidária com o poder público? Como é e como deve ser?
 A economia solidária tem que ser autônoma e organizada a partir dos seus fóruns que são autônomos e que dialogam com o poder público, que organizam juntos o planejamento estratégico. O poder público, através de secretarias específicas, ou através da Secretaria do Trabalho, de Desenvolvimento Econômico, Desenvolvimento Social ou Assistência Social, dependendo do município, tem tido um olhar, tem buscado recursos. Hoje, a nível nacional, nós temos a Secretaria Nacional de Economia Solidária (SNES), que tem tido linhas importantes de crédito, de fomento, dinheiro a fundo perdido, inclusive, muitos ligados ao combate à miséria, é uma ideia assistencialista, mas é uma ideia de emancipação, de romper com a lógica de dependência com o poder público e que as pessoas caminhem com suas próprias pernas, o que eu acho que tem tudo a ver com o Brasil.
 
Como funcionam os fóruns?
Os fóruns são grupos autônomos, são o conjunto de produtores que se reúnem no município e criam uma instância. Como se fosse o sindicato de uma categoria que se cria, que não tem nada a ver com a empresa, que é amiga dos trabalhadores. A economia solidária cria os seus fóruns, que são criados pelos produtores; cria um conjunto de pessoas que vão dirigir o fórum, mas que não tem poder sobre as outras. Fazem reuniões (plenárias) mensais em que todos participam, opinam, votam e tiram diretrizes para trabalhar em conjunto. E quando a cidade é muito grande, o que pode acontecer é a cidade ter um fórum municipal único, mas ter redes locais de Economia Solidária que permitam que os produtores daquela região se juntem e discutam, além da questão de produção das suas atividades, questões do dia a dia daquele local; as escolas, os acessos, que inclusive dialoguem com o poder público que a qualidade de vida, a melhoria e o desenvolvimento não se dão só por gerar renda, se dão por ter acesso a uma boa escola, um bom hospital, acesso a saneamento, a estradas que permitam o escoamento da produção e isso é obrigação do poder público, que fará com prazer, ainda mais se estiver antenado e dialogando com a sociedade. Na verdade, é uma organização da sociedade civil, que me parece a forma mais democrática e amadurecida de construir canais de comunicação do poder público com a sociedade.
 
Qual a relação da produção de produtos orgânicos com a Economia Solidária?
Todo mundo ganha, porque no orgânico o produtor precisa colher já sabendo onde vai vender, pois não tem agrotóxico, o produto não pode ficar encostado seis meses para depois vender, é o risco que ele tem. Primeiro que ele já não usa defensivo quando está plantando, segundo que se colher e não vender o produto vai estragar. Ter uma feira permanente é o espaço de escoamento da produção, é o produtor direto com o consumidor em feiras que não agridem a cidade, é o direito do consumidor com acesso a preços menores do que alguns supermercados que exploram a ideia do orgânico, de produto de qualidade, sem agrotóxico, isso é um direito à vida, à qualidade, à alimentação saudável. Então, todo mundo ganha. Quanto mais você tem feira, mais vai ter gente plantando orgânico, mais o cara que planta vai plantar porque sabe que vai ter escoamento e mais barato o preço porque você tem mais oferta e ainda tem a lei da alimentação escolar, que muitas vezes o município não cumpre. Prefeitura não tem que ter medo de atividade econômica, tem que saber se aproximar dela, ainda mais quando estamos falando de pequenos produtores, estimulá-los, porque assim que você fixa o homem à terra, você cria uma relação equilibrada. 
A ecologia no século XXI não é mais só o “salve a baleia”, é também o “salve o ser humano”. A natureza tem nos dado sinais terríveis, não dá mais. Esse modelo que o mundo estava consagrando, de consumir, consumir, consumir, está óbvio que não se sustenta, “a natureza ser devastada a serviço do consumo”, é óbvio que não é possível. Nós temos que encontrar outro modelo que permita que continuemos consumindo.
 
Qual a relação do turismo de base comunitária com a produção orgânica e a Economia Solidária?
Eu acho que já tem uma semente orgânica plantada, acho que tem que organizar essa cadeia produtiva para que não entre um explorador, pois tem sempre um que quer entrar para se aproveitar do dinheiro que esta atividade está gerando; que isso seja uma lógica do comércio justo, sem exploração e aí você terá muita gente que virá a Friburgo para visitar esse espaço, para entender a produção, inclusive nesses grandes eventos, eu não tenho a menor dúvida que você terá caravanas de pessoas querendo vir e têm o seguinte: as pessoas vindo e gostando, elas voltam e divulgam. Eu acho que você tem um enorme potencial, inclusive sofisticado, eu diria. Você junta uma história antiga, uma colonização europeia, com uma coisa ligada ao verde e a preservação da história, uma natureza que tem uma força assustadora por um lado, mas por outro tem uma exuberância. Depois do luto vem a luta e essa é a hora da organização. Eu aposto muito que isso vai acontecer, na verdade, já está acontecendo, o que se diz no estado, em Teresópolis, é o seguinte: “Teresópolis continua muito próxima ao que era quando aconteceu a tragédia e está patinando. Agora, vai a Friburgo, eles estão superando, aquele povo tem uma fibra.” Se é verdade ou um mito, veremos. Mas se isso é dito fora daqui, é porque alguma coisa Nova Friburgo tem.
 
Depois dessa palestra, como você vê a Economia Solidária em Nova Friburgo?
Nova Friburgo tem um enorme potencial para economia solidária, porque tem todo um espaço rural em que ela cai muito bem, até pela lógica de pequenos lotes, pequenos grupos, onde muita gente produz em espaços pequenos. Friburgo não é o espaço do latifúndio, é o espaço dos pequenos produtores que precisam se organizar para pensar a logística e a distribuição. É uma cidade que tem força. Você tem a comercialização, tem mercados consumidores e é perto do Rio de Janeiro, o que facilita o acesso. Podem comercializar tanto aqui como lá no Rio. Por tudo que tem na história de Nova Friburgo, seja a colonização, seja a história recente de superação. Temos um pequeno núcleo que hoje se reuniu e acho que essa pode ser uma reunião histórica do nascimento de algo muito mais forte e que tem tudo a ver com a economia da cidade. 

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