Gangorra de perguntas

Por *Rodrigo Garcia
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
por Jornal A Voz da Serra

Stefan Zweig, um dos maiores escritores europeus, viveu um duro dilema na época da Europa assombrada pelo nazismo. Ele não conseguia viver em paz na Áustria, sua terra natal, porque esta havia sido ocupada pelos nazistas e ele era judeu. E não pôde viver em paz na Inglaterra, porque falava alemão e a Alemanha estava em guerra contra os ingleses. Onde estivesse, era rechaçado de alguma forma.

Partindo deste caso-metáfora, chamo atenção para um dilema discursivo do noticiário econômico. Por um lado, há a reclamação de que o Banco Central estabelece uma das mais altas taxas de juro (Selic) do mundo, o que impediria o desenvolvimento econômico adequado. Por outro lado, quando a taxa é reduzida, surge a reclamação da conivência governista com a possível volta da inflação. Seja qual for a ação com a taxa de juros, ela é majoritariamente rechaçada pela imprensa.

Este dilema é fruto de uma época interessante (2003-2010) na histórica econômica brasileira. Vejamos:

A década de 70 foi marcada pela predominância de um ambiente de crescimento, expresso pelo Milagre Econômico. A gangorra pendia para o desenvolvimentismo.

Na década de 80, o ambiente de incertezas políticas refletiu na economia, e aqueles foram anos de uma crise econômica profunda, que teve como grande marca a tragédia inflacionária. A predominância da gangorra não foi desenvolvimentista, tampouco liberal.

Nos anos 90, houve a consolidação democrática e a implantação de um modelo econômico, predominante na década, que tinha como objetivo principal combater a inflação e estabilizar a economia. A gangorra pendeu para o liberalismo.

Enfim, chegamos à era Lula (2003-2010). Afinal, o que predominou? O liberalismo da aceitação do modelo de privatizações, dos lucros recordes dos bancos, do superávit primário? Ou o desenvolvimentismo da revalorização da Petrobras, da atuação decisiva do BNDES para combater a crise de 2008, da criação de um forte mercado interno? Para onde pendeu a gangorra?

Respondo esta pergunta, mas deixo outras.

Minha resposta é que não houve predomínio de uma categoria de ação—desenvolvimentista ou liberal. O que houve foi a junção de políticas destas duas grandes áreas de políticas públicas. O mesmo governo que deu à Petrobras a exclusividade para operar a exploração do petróleo do pré-sal, permitiu que os bancos ganhassem dinheiro em cifras recordes.

Uma das perguntas que faço é se esta conjugação de políticas liberais e de desenvolvimento—conjugação que no fim é criticada por partidários dos dois lados—pode ser considerada uma nova era econômica, ou aconteceu apenas por pragmatismo? Afinal, vamos reconhecer que desenvolvimentismo e liberalismo fundiram-se irreversivelmente, ou em algum momento um deles despontará nas mãos deste ou de outro governo?

No dilema entre a Áustria e a Inglaterra, Stefan Zweig terminou a vida em Petrópolis, onde se matou em 1942. A morte, assunto tão difícil para os humanos, curiosamente é uma renovação biológica.

Será que na economia, ao realizar políticas alternativas ao canônico econômico do mundo rico, estamos inovando, renovando, inventando a partir da morte de dois modelos—o Welfare State e o neoliberalismo? Ou fazemos apenas mais do mesmo, ao sabor da mesma manutenção de profundas desigualdades sociais e geopolíticas, apenas usando uma roupa nova para disfarçar?

*Rodrigo Garcia é mestrando em Ciência Política (UFF) rodrigo7garcia@yahoo.com.br

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