Futebol de mãos sujas

sexta-feira, 25 de junho de 2010
por Jornal A Voz da Serra

Paris, 18 de novembro de 2009. Estão em campo as seleções de futebol da França e da Irlanda. Quase fim de jogo: a Irlanda ganha de 1 a 0. O resultado levava a decisão para os pênaltis (por causa do jogo anterior em Dublin, quando a França ganhara por 1 a 0). O jogo era decisivo: ou a classificação para a Copa de 2010 ou a desclassificação. Já corria a fase da repescagem.

Falta contra a Irlanda. Cobrada pelo alto, há dois franceses em impedimento (um deles é Thierry Henry). O árbitro não apita. Henry se adianta e junto à linha de fundo, ajeita claramente a bola com o braço e em seguida com a mão, e cruza (com o pé) para o centro da pequena área. William Gallas cabeceia e empata o jogo. A despeito das muitas e legítimas reclamações, o juiz sueco Martin Hansson não se abala e valida o gol. A França está classificada para a Copa do Mundo de Futebol de 2010 na África do Sul. A Irlanda está eliminada.

É claro que para os telespectadores e comentaristas que assistem ao jogo desde uma confortável poltrona e com os muitos recursos da televisão, com suas inúmeras câmeras e ângulos, é bem mais fácil que para um indivíduo cansado que corre de um lado para o outro em campo ter clareza da ilegitimidade do gol. Compreende-se, portanto, a possibilidade de erro do juiz. Mas o que dizer da Fifa? Não lhe seria cabida a responsabilidade de anular o ponto e intervir em nome da seriedade e da justiça?

O fato é que nem o juiz nem a Fifa tomaram tal atitude.

Mas e a França? Não lhe seria digna a eventual decisão de assumir a burla e recusar a ilegítima classificação para a Copa?

A mim, humilde leitor da história, mais do que digna, tal atitude seria a esperada da nação da revolução que incendiou a Europa e o mundo com ideias de liberdade, igualdade e fraternidade. Dessa vez, a revolução seria sem uma gota de sangue sequer, sem uma cabeça perdida pelo fio de uma guilhotina.

Seria o que se esperar dos herdeiros de Robespierre, para quem liberdade e igualdade eram condições para o governo, e, no que tange aos cidadãos, para quem acreditava na fraternidade em seus relacionamentos, probidade em sua conduta, bom senso como espírito e modéstia em suas ações públicas.

Seria o que se esperar de atletas que, em tese, vivem o tão aclamado fair play. Ou seja, jogo limpo. Aquilo que o Barão Pierre de Coubertin, idealizador dos Jogos Olímpicos da era moderna, tanto proclamava sobre a natureza do esporte. O conceito representa a essência de qualquer esporte. E o futebol, como se diz, o principal esporte praticado no planeta, não deveria fugir à regra. Princípio, aliás, que representa valores como a honra e a lealdade, o respeito pelos adversários e pela arbitragem, pelos companheiros e por si próprio. Em outras palavras, o respeito total pelas regras, princípios e códigos de conduta, obedecendo o principio da justiça e renunciando a vantagens ilícitas. Isso faria dos esportes, em geral, e do futebol, em especial, uma escola de cidadania, ensejando a oportunidade de aprender que o sucesso é obtido não apenas através do desejo e da perseverança, mas também que é consagrado unicamente através da honestidade e da justiça.

Nem o juiz daquela feia partida de futebol, nem a Fifa, nem a seleção francesa de futebol se moveram em qualquer direção mais próxima da justiça e da correção.

Isso me faz pensar até que ponto, de fato, o esporte é tudo que dele se apregoa. O que vejo é um pouco diferente. Entre os atletas profissionais, há uma competitividade que extrapola os limites da ética; uma agressividade desmedida e, por vezes, desleal (os jogadores, cada vez mais, parecem brutamontes desajeitados); uma exigência com os limites do corpo que transborda para o uso de substâncias ilícitas e prejudiciais à saúde; uma ganância financeira que faz dos esportes um mercado que usurpa de crianças e jovens as oportunidades de educação e convívio familiar; e, acima de tudo, um entretenimento (em especial no caso do futebol brasileiro) que para, irresponsavelmente, um país inteiro para assistir a um jogo de bola!

Sem cair num cinismo cego (incapaz de perceber o poder de coesão social do futebol e de outorga de identidade a uma gente sofrida), há que se resgatar o lugar de cada coisa. Futebol é só futebol! A despeito de toda sua beleza (que nem é tanta) e molecagem (no bom sentido), uma partida de futebol é só uma partida de futebol. Nada menos, mas nada mais!

Bloenfontein, África do Sul, 22 de junho de 2010. Sete meses depois. Prematuridade. França e África do Sul. Jogo válido pela fase classificatória da Copa. França desclassificada.

Em jogo que se joga com os pés, as mãos podem fazer milagres. Mas milagres que, além de morrerem cedo, mostram que a vida pede mais que sucesso – pede o que se faz de mãos dadas: justiça!

Eis a França de novo a nos ensinar.

Au revoir!

***

Nota importante: Joanesburgo, 20 de junho. Em campo: Brasil e Costa do Marfim. Dois toques com a mão de Luis Fabiano numa sequência de ‘chapéus’ e ‘cortadas’ abrem as portas para o segundo de três gols da seleção brasileira. O juiz é francês (gostou do toque de mão)! Não se tratou de um ponto que garantisse classificação ou desclassificação de ninguém, mas é muito feio que ainda consideremos ‘bela’ a burla da regra.

É curioso que num jogo tão elementar, cuja regra básica é o uso dos pés, se ache graça quando se tira vantagem com as ‘mãos’. Não se pode pensar que seja coisa séria. Há que se lamentar!

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