Friburgo ganha ponto de apoio para moradores de rua

Espaço em Duas Pedras acolherá pessoas em situação de vulnerabilidade para passarem as noites mais frias
terça-feira, 09 de julho de 2019
por Fernando Moreira (fernando@avozdaserra.com.br)
Moradores de rua à noite em Nova Friburgo (Fotos: Henrique Pinheiro)
Moradores de rua à noite em Nova Friburgo (Fotos: Henrique Pinheiro)

O friburguense mais atento certamente já percebeu o crescente número de pessoas vivendo em situação de rua na cidade. São homens e mulheres, de jovens a idosos, que ocupam praças e calçadas. Alguns passam o dia pedindo esmolas, outros atuam como flanelinhas e, a maioria, é usuária de álcool e outras drogas. Uma situação que comove e causa indignação, além de acarretar problemas sociais, de saúde pública e segurança.

Como Nova Friburgo ainda preserva características de cidade do interior, os friburguenses já conhecem boa parte das pessoas em situação de rua que se dividem em grupos no coreto da Praça Marcílio Dias e entorno do Paissandu, Praça do Suspiro, bairro Ypu, Avenida Alberto Braune e Praça Getúlio Vargas, principalmente no prédio do antigo fórum. Constantemente A VOZ DA SERRA recebe queixas de leitores preocupados com o crescente número de pessoas em situação de rua.

Casos extremos

No último dia 3, a advogada Rosângela Cassano publicou em uma rede social três fotos que preocupam e assustam. Os registros foram feitos na entrada lateral do prédio do antigo Fórum Júlio Zamith e mostram como o local amanheceu: com manchas de sangue pelo chão e com roupas, cobertores e papelões espalhados.

Ninguém soube dizer o que aconteceu. A suspeita é de alguma briga que acabou com uma das pessoas em situação de rua ferida. A PM informou que não houve comunicado e registro do fato. Já Prefeitura de Nova Friburgo, por meio da Secretaria Municipal de Assistência Social, confirmou o caso em nota e disse que “uma disputa interna entre os moradores de rua resultou numa briga”.

Comerciantes e moradores temerosos

Quem mora ou trabalha próximo aos pontos onde se concentram as pessoas em situação de rua, convive diariamente com o medo e a insegurança. A esteticista Rafaela Alves mora em um prédio na Rua Ernesto Brasílio e já presenciou diversas brigas, confusões e algazarras promovidas pelas pessoas que usam a escadaria do antigo fórum como abrigo.

“Isso já acontece há muito tempo, infelizmente. Friburgo está cheia de moradores de rua. À noite tem bebedeiras, uso de drogas e até sexo. Durante o dia, a sujeira fica visível a todos que passam por ali. Eem quase todas as janelas do prédio ficam guardados os pertences deles. Tenho muito medo de passar por ali sozinha, principalmente a noite”, relatou Rafaela.

Quem trabalha por ali também se incomoda. Uma outra mulher, que não quis se identificar, revelou que no início das manhãs e à noite são os períodos em que ela sente mais medo de passar por ali porque a rua está menos movimentada.

“Durante o dia eles saem dali e ocupam outros pontos. Mas é uma situação que incomoda porque gera insegurança. Tenho clientes que evitam marcar atendimento em determinados horários por medo de serem abordadas por moradores de rua”, disse.

O que diz a prefeitura

Por meio de nota, a Prefeitura de Nova Friburgo, através da Secretaria Municipal de Assistência Social, afirmou que atualmente a cidade “tem aproximadamente 20 pessoas em situação de rua, sendo todos munícipes e a maioria com algum tipo de dependência química”. Ainda segundo a nota, regularmente são feitas abordagens sociais pela cidade e, durante essas diligências, foi identificado que “todas as pessoas que estão em situação de rua possuem residência fixa e são sempre orientadas a retornarem aos seus lares”. A nota informa ainda que a maioria acaba resistindo a qualquer tipo de ajuda.

Sobre as queixas do entorno do antigo Fórum, a Prefeitura informou que a Secretaria Municipal de Serviços Públicos realiza a limpeza do espaço sempre que acionada. Já no que tange a atitudes inconvenientes destas pessoas, como desacatos e agressões, a orientação é que busquem o auxílio da Polícia Militar.

Ponto de apoio no período mais frio

Conforme já previsto pelos institutos de meteorologia, as temperaturas despencaram no último fim de semana. Se para quem está agasalhado e tem um lar para viver o frio já está congelante, imagina quem vive em situação de rua? Pensando nisso, a Secretaria Municipal de Assistência Social abriu um ponto de apoio, no bairro Duas Pedras, para acolher essas pessoas e oferecer um local digno para elas passarem as noites. A iniciativa teve início no último sábado, 6, e se estenderá enquanto o frio for demasiado.

De acordo com a secretária da pasta, Cláudia Mara, os moradores em situação de rua foram convidados pelas equipes do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) a passarem as noites no espaço, onde podem tomar banho quente e dormir com cobertores e colchonetes, além de se alimentarem com comidas e bebidas quentes.

“Na primeira noite seis pessoas aceitaram o nosso convite. Na segunda noite já foram 11. Eles receberam doações de roupas e se alimentaram com caldos de mocotó e legumes, além de pão e chocolate quente. Somos gratos à dedicação das equipes, à Defesa Civil e a Guarda Municipal, além dos voluntários que se solidarizaram com a causa e fazem a diferença na vida dessas pessoas através da entrega de refeições e doações”, disse Cláudia.

Como ajudar

Pessoas interessadas em ajudar com doações devem ir até o Creas, que fica na Rua Carlos Magno, 5, (próximo ao Hospital Municipal Raul Sertã), e procurar a coordenadora Gisele Saioron. As maiores necessidades são roupas de frio masculinas, cobertores, toucas e toalhas de banho.

Cruz Vermelha faz doação de cobertores 

No último fim de semana voluntários da Cruz Vermelha fizeram uma ronda por vários bairros da cidade a fim de entregar cobertores doados a pessoas em situação de vulnerabilidade nas ruas. Os voluntários encontraram pessoas dormindo embaixo de marquises, sobre jornais e papelão. No distrito de Conselheiro Paulino, um grupo de moradores de rua ocupava barracas de plástico às margens do Rio Bengalas, onde improvisaram uma fogueira para se aquecerem. Os donativos podem ser entregues na  entidade que fica na Praça Getúlio Vargas, 92.

Iniciativa elogiada 

 

A notícia de que a Prefeitura de Nova Friburgo providenciou um ponto de apoio provisório para acolher no período noturno as pessoas em situação de rua aqueceu o coração da população friburguense.  A iniciativa rendeu elogios nas redes sociais.

“É muito importante uma iniciativa dessas, pois se para a gente agasalhado dentro de casa já está complicado, imagina para eles que não tem onde dormir. Parabéns e que sirva de exemplo para todas as cidades”, disse um leitor da página do jornal no Facebook. “Que atitude legal, tinha que acontecer isso em todos os lugares. Em São Paulo que é uma cidade grande, morreram mais de cinco moradores de rua só este mês. Uma vergonha. Parabéns pela iniciativa”, disse outra leitora.   

De acordo com a secretária de Assistência Social de Nova Friburgo, Cláudia Mara, o imóvel que funciona como ponto de apoio, no bairro Duas Pedras, tem capacidade para abrigar cerca de dez pessoas. Após o trabalho de abordagem e acolhimento feito pelas equipes da Secretaria nas ruas da cidade, as pessoas que aceitam a ajuda são encaminhadas para o ponto de apoio. Lá, elas podem tomar banho quente, recebem roupas, cobertores e colchonetes limpos, além de café da manhã e jantar.

“Hoje eles também cortaram o cabelo e fizeram a barba. À noite alguns voltam e outros tentamos acolher novamente. Vamos funcionar pelo menos nesse período mais frio do ano para não termos a notícia ruim de que uma pessoa faleceu em nossa cidade por conta das baixas temperaturas. Temos que tratar essas pessoas de forma bastante humana, dando a elas a possibilidade de dormir e se alimentar de maneira digna”, destacou Cláudia Mara.

Como ajudar

As pessoas que tiverem o interesse de ajudar com doações devem ir até o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), que fica na Rua Carlos Magno, 5, próximo ao Hospital Municipal Raul Sertã, e procurar a coordenadora Gisele Saioron. As maiores necessidades são roupas de frio masculinas, cobertores, toucas e toalhas de banho.

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