Filhos: melhor tê-los, sim!

A questão é que o verdadeiro amor redefine as dimensões do próprio ser, que já não termina mais em si mesmo mas se funde ao objeto desse amor,
sábado, 08 de agosto de 2015
por Márcio Madeira
Foto: Amanda Tinoco
Foto: Amanda Tinoco
Demorei 13.445 dias para ser pai. Calma, não precisa fazer as contas, porque eu já fiz. Esse número equivale a 36 anos, 9 meses e 22 dias. Não dá para dizer que fui pai cedo, portanto. E o mais curioso é que, sendo pai há menos de três meses, já não consigo imaginar como suportei viver tanto tempo sem o colo do meu filho.

E nessa relação onde não existe ego, a alegria reside mais na doação do que no recebimento; mais no cuidar do que em ser cuidado; mais na abnegação do que no egoísmo
Não deixa de ser até uma situação engraçada, porque durante a maior parte de minha vida eu tive medo de ser pai. E tinha meus motivos. Afinal de contas, analisando de forma puramente racional, ser pai não é um bom negócio — e tantos pais fazem questão de reverberar esses desestímulos a qualquer um que manifeste o desejo de viver a paternidade, ou que se descubra no início de uma gravidez.

De fato, o sono nunca mais será o mesmo, seu dinheiro terá vontades próprias, e mesmo os menores compromissos estarão sujeitos a imprevistos de última hora. Da mesma forma, é igualmente verdade que crianças muitas vezes podem ser inconvenientes, e provavelmente vão te colocar em situações constrangedoras em algumas oportunidades. Além disso, para tornar ainda mais “injusta” essa relação entre pais e filhos, todas as noites mal dormidas, cada uma das vezes em que você abrir mão de suas próprias necessidades em benefício das dele, serão completamente esquecidas por esse pequeno beneficiário, que só irá começar a se lembrar de alguma coisa após três ou quatro anos da mais profunda dedicação de sua parte.

Nada disso é mentira.

No entanto, o que pouca gente verbaliza é que a experiência da paternidade não deve ser analisada ou vivida sob a ótica da razão. Estamos falando aqui do mais profundo sentimento, e há que se compreender que o coração obedece a um lógica própria, cuja mais perfeita síntese talvez repouse na belíssima oração de São Francisco de Assis.

A questão é que o verdadeiro amor redefine as dimensões do próprio ser, que já não termina mais em si mesmo mas se funde ao objeto desse amor, unindo para sempre seus destinos. A alegria de um é a satisfação do outro, a dor na carne do amado explode ainda mais forte no coração de quem ama. E nessa relação onde não existe ego, uma vez que todos são um, a alegria reside mais na doação do que no recebimento; mais no cuidar do que em ser cuidado; mais na abnegação do que no egoísmo.

Quando se abraça tal amor sem qualquer reserva, portanto, as maiores alegrias residem justamente onde a razão fria apontaria os maiores prejuízos. Gastar seu dinheiro com alguém que não seja você mesmo torna-se, de repente, o melhor e mais satisfatório dos investimentos. Passar boa parte da noite em claro torna-se um privilégio, ao render momentos de testemunho da mais cristalina pureza, ou outros de cumplicidade, de amparo, de abrigo, de conforto a alguém que, sem você, sentiria medo de tudo. Ora, melhor seria se não precisássemos dormir em definitivo, para não perder nem ao menos um segundo desse milagre crescendo diante dos olhos!

Boa parte desse discurso negativista em relação à paternidade, portanto, se deve ao caráter unilateral e distorcido que boa parte das pessoas tem a respeito das mudanças atreladas a ser pai. Afinal, é muito fácil identificar tudo aquilo que se perde ao assumir compromissos tão sérios quanto o matrimônio e filhos. Liberdade, tempo livre, descompromisso, o gasto egoísta do dinheiro... Mas é somente quando se cruza essa fronteira, sem jamais olhar para trás, que se percebe o quanto aqueles que não vivem a paternidade também perdem, sem se dar conta disso. E não poderia mesmo ser diferente. Afinal, estão perdendo o que jamais tiveram ou chegaram a conhecer.

E as descobertas não param por aí, porque um dos aspectos mais maravilhosos a respeito da paternidade é a forma como ela afeta a relação com nossos próprios pais. Segurar seu filho no colo é ter a chance de fazer as pazes com a parte esquecida da própria infância, testemunhando-a com uma geração de atraso sob os olhos de quem, lá atrás, se sacrificou em silêncio para que você pudesse ser quem é hoje. Ser pai é perceber, afinal, que seus pais também não eram muito mais do que crianças quando você nasceu, amando e aprendendo, também cheios de medo, enquanto mascaravam as próprias incertezas tentando te passar toda a segurança do mundo.

E o mais interessante é que essa ficha cai de forma simultânea, e de maneiras distintas, tanto para os novos pais quanto para os novos avós. Vendo que seus bebês finalmente cresceram, e agora têm sua própria família e suas próprias responsabilidades, eles podem finalmente conversar de igual para igual, sem o peso da orientação e do exemplo que suportaram silenciosamente durante todos estes anos. Note: quando filhos viram pais, pais viram... Amigos. Os melhores que se pode ter. Acredite: você pode viver mil anos e jamais verá algo mais realizador do que seus pais brincando com seus filhos.

No fim, portanto, o valor e a recompensa da paternidade dependem fundamentalmente da disposição que se tem para cruzar a barreira do egoísmo e abraçar a missão de viver para o outro, sem esperar reconhecimento ou olhar para o que perdeu. Se você sente que (ainda) não é capaz disso, então não, a paternidade não será um bom negócio para você ou seus filhos, nessa fase da vida.

Se, no entanto, essa vontade existe aí dentro, então faça tudo da melhor forma possível e curta cada instante. A vida irá te recompensar abundantemente por cada doação que você fizer, e você terá muita satisfação ao perceber que, ao menos nesse aspecto, o saudoso Vinicius de Moraes não estava certo não. É muito melhor ter filhos, sim.

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