Facebunker - O tempo ao relento

Quem dera, quimera, te amar para sempre no espaço de um segundo... Permitir-se a perda do chão. Da noção, de tempo e espaço
sexta-feira, 22 de junho de 2012
por Jornal A Voz da Serra

Por Leonardo Amando

leonardoamando@hotmail.com

A cada sessenta segundos, um minuto se passa. Óbvio ululante, já diria o pulsante Rodrigues. Sim, o Nelson. Aquele que se via vendo o tempo passar. Vendo o tempo e o vento. É vero. Veríssimo! O tempo que vendo. Me vendo, passar. Passado, em tempo, no qual me relembro. Inconstante. Tal como o vento, que a tudo muda. Que a todos machuca. Cumprindo seu destino, de levar e trazer venturas. Boas ou más. Permanência e efemeridade, que permanecem em voga, no imaginário de cada ser vivente. Vivendo de passado, futuro, nunca presente. No qual se pressente, com serenidade, o que virá, utopicamente. Mente aquele que nunca saiu do ar em suspiro suspenso. Penso: também mente o que, eternamente, se recusa a olhar a luz do mesmo dia em que seu corpo está.

A cada sessenta segundos, um minuto se passa. E daí, se nele você não mais está? Se o congelar na fria madrugada não remete ao minuto passado a teu lado? Se o sussurro é só grito, se o grito não é mais de prazer? Jaz o desejo. Traz o que receio. Em teu seio não mais pousar. Mãos afoitas, perdidas num cego tiroteio, em frequente descaminho. Estranhas no ninho, buscando alimento, carinho. Vão seguindo, trêmulas, em meio ao dia que se arrasta, entre clicks e clocks, à procura do imponderável destino. O desatino de voltar à normalidade, a cada segundo, onde a eternidade se passa.

A cada sessenta segundos, um minuto se passa. Minuta do que não se altera, rotina de toda uma vida. Quem dera, quimera, te amar para sempre no espaço de um segundo. Ciclicamente, nem que seja por um minuto. Minto. Quisera por uma eterna idade. Tenra idade que um dia fomos. Sem nos darmos conta, sem dar conta a ninguém. Mundo em suspenso, irresponsáveis compromissos. Permitir-se a perda do chão. Da noção, de tempo e espaço.

A cada sessenta segundos, um minuto se passa. Haja hoje para tanto ontem, alerta o poeta. Haja tempo para o que intento. Rebuscar o caminho, mesmo ao relento. Relendo o que não foi escrito, escrevendo tudo a seu tempo. Seja em que tempo for. Tempus fugit, volte aqui, sou seu dono, não tens nada além do meu pulsar abstrato. Nenhuma perda, nada a declarar. Sigo rente, porém seguro, na certeza de que meu tempo tem o tempo que o meu tempo tem. Serenidade, abstração, mantra. Tic Tac pendular. A canção acabou, o tempo se foi... Ouço a mesma coisa há muito tempo. Que muito é esse? Ninguém saberia dizer.

Não importa, a cada sessenta segundos, um minuto se passa. Ao próximo segundo, um sinal: tempo de recomeçar.

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