Por Leonardo Amando
leonardoamando@hotmail.com
(para Mary Sad)
Outro dia estava pensando sobre qual parte de nós vai embora a cada perda. Há vinte anos me pego sofrendo de ausências, constatando que as minhas tardes de domingo soam solitárias por não ter mais tanta gente assim para rir junto de tudo o que vivemos em comunhão.
Tios e avós também se foram, levando com eles algumas páginas da história que a minha memória insiste em não lembrar. Com o tempo ficamos órfãos de nossa própria história, requerendo adoções, parcerias, festas infantis, para tirar o atraso do nosso tic tac afetivo com os laços restantes, daquilo que nos prende ao fio da vida.
Não costumo perceber a passagem do tempo. Não sei se por manter-me tentando não perder a forma, pela correria, ou por fatores externos, que nos fazem desestabelecer prioridades a todo instante. Instante que vai e vem, nos joga em um embalo interminável, resultando na ausência do aqui e agora.
O fato é que o que passou ganha logo o nome de ontem, relegado a uma espécie de limbo, ficando ali, na memória remota, sem data muito definida. Se foi há um, dois, cinco ou dez anos, raramente sei dizer com alguma precisão. Talvez nem um relógio atômico o soubesse afirmar, haja vista a tal relatividade do tempo. Sim, o pêndulo se move em precisos balanços, só aparentemente equidistantes; se volto ao encontro de meus pais, permaneço naquele aconchego, congelado naquele terno reencontro. Se há desilusão no passado, dou corda e passo direto pelo presente, rumo ao futuro, adiante e além.
Pêndulo, aquele que vai e vem, além e aquém, nos levando e trazendo, de volta, ao que não somos mais. Caro leitor, o tempo passa, com ou sem a nossa percepção, nos dando chance de vivê-lo, em vez de relembrá-lo. É uma anestesia. Mas os laços não se rompem. Relembrar é doído.
Doido daquele que não se dói, movendo-se no sentido anti-horário. Há que se ter o entendimento de que um livro está sendo escrito. Essa percepção cicatriza feridas. É escrito pelos mais velhos e pelos que chegam depois. A nós cabe a revisão, ainda que a mesma empurre o pêndulo para a frente...
E no encerrar do dia, estando sempre mais entretido com as páginas, que contarão o que ainda está por vir, é delicioso, de vez em quando, reler as já escritas, e descobrir que a gente adorou a história.
Ainda que seu final jamais esteja ao nosso alcance. Roteiros os temos para quase nunca segui-los. Os atores se bastam em si mesmos, seus textos os sabem de cor. Existe algo de atemporal naquele balanço. E isso, por si só, me basta.
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