Facebunker - O livre arbítrio de Charles Bukowski

sexta-feira, 08 de junho de 2012
por Jornal A Voz da Serra

Por Leonardo Amando

leonardoamando@hotmail.com

Amigo leitor, eu confesso: só fui travar contato com a obra desse ser especial depois de velho. Quando adolescente passei os olhos superficialmente sobre seus escritos, e só. Tempos mais tarde, o Santo Google me ajudou um bocado, admito. Ainda assim, tinha certa repulsa. Achava-o muito cáustico, rústico, quase antipático. Não entendia nada daquilo que, afinal, era para ser assim mesmo, na sua essência inquieta, traumatizado por uma infância conturbada e pelas vivências no submundo da cidade de Los Angeles. Pobre de mim, nada sabia sobre o “pássaro azul”...

Recentemente, com toda a verdade que me era possível transpirar, virei o melhor amigo do “Velho Buk”. Aquilo tudo me parecia bem verdadeiro. Era adequado e pertinente. Era visceral, latente. De fato, “há um pássaro azul no meu peito que quer sair, mas eu sou mais forte que ele”. Deve ser o receio de vê-lo machucado, em face de tantos e tantos estilingues apontados para o

indefeso animal. Daí então, “eu digo, fica aí, não vou deixar ninguém te ver”. E endureço meu discurso, me prendo e saio pela tangente.

“Há um pássaro azul no meu peito que quer sair”, mas eu me meto a escrever o que não sinto e dou um tempo nas minhas verdades. Ele se aquieta, e tudo segue. Família, amigos, “garçons e os balconistas dos mercados, nunca percebem que ele está aqui dentro”.

“Há um pássaro azul no meu peito que quer sair, mas eu sou mais forte que ele. Eu digo, fica quieto, você quer me pôr em apuros? Quer ferrar com meu trabalho?” Quer acabar com a minha credibilidade? E ele dorme, entre resignado e temeroso, o sono dos oprimidos.

“Há um pássaro azul no meu peito que quer sair. Mas eu sou esperto demais, só o deixo sair à noite, às vezes, enquanto todo mundo está dormindo. Eu digo, eu sei que você está aí, não fique chateado. Então o ponho de volta, mas ele canta um pouco aqui dentro. Não o deixei realmente morrer, e dormimos juntos, assim, no nosso pacto secreto.”

Entre sonhos e virtudes, desejo, necessidade e vontade se confundem. E ele canta na madrugada, me fazendo despertar para coisa nenhuma. Eu digo: mas o que você quer afinal, meu rapaz?!? E ele, ao invés de se aquietar novamente, responde: Quero minha vida de volta.

Palavras me faltam, nem um sussurro me permito. Acato, sabendo da contradição que isso representa. Me pego novamente sendo o “Velho Buk”, em seu infinito crepúsculo.

“E isso é o bastante para fazer um homem chorar, mas eu não choro.

E você?”

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