Por Leonardo Amando
leonardoamando@hotmail.com
O cenário é o mais high tech possível: um barzinho, pub ou similar, pretensamente antenado, descolado, moderno. Suas paredes, repletas de luzes indiretas, penumbras, compõem um cenário paradoxalmente clean. Os garçons, em pretinho básico, movem-se silenciosos, esvaindo-se no ambiente, armados de palmtops. A única quebra nesta arquitetura refere-se a uma TV—LCD, é claro—, pendurada, reinando absoluta na parede principal, tal qual oráculo dos tempos estranhos em que vivemos. Nada de som direto, obviamente. “Ouve-se” pelo close caption...
Peço uma pizza, forno à lenha, prontamente digitada no bloquinho eletrônico. Um “OK” é tudo o que recebo em resposta. Um grupo chega, ruidoso, abafando o som do silêncio. Não há crianças ali. Doze pessoas, talvez mais, ocupando uma mesa que, me leva a crer, seja formada para a comemoração de um aniversário. Acomodam-se, recebem um “boa noite” protocolar, tomam para si os cardápios. Abre daqui, sugere dali, uma dúvida aqui, outra acolá. Debate pacificado, pedidos feitos, o “OK” do “homem de preto” se repete, programadamente. Em seguida, silêncio. De longe observo, mal podendo esperar pelo próximo ato.
Nos cinco minutos seguintes, o limite das relações presenciais do Homo Tecnologicus se materializa. IPhones, iPads, iPods brotam das bolsas e jaquetas em uma velocidade daquelas só existentes nas promessas dos provedores de banda larga. Por um instante considerei até mesmo a possibilidade de uma manifestação post-mortem do Steve Jobs. Afinal, na grande rede a morte é algo muito concreto para ser levada em conta. E o fundador da Apple sabia muito bem disso... Sua frase “As pessoas não sabem o que querem até mostrarmos a elas” encerra um propósito muito bem alcançado, há de se reconhecer.
Todos ali, ao redor da mesa, em uma potencial comunhão presencial, motivada por uma data festiva, mantiveram-se estanques, em seu mundo pessoal, agarrados a um paradigma de conectividade estabelecido e a partir do momento em que alguém detectou que “as pessoas não sabem o que querem...” são habituados a se comportarem daquela maneira. O fato é que ninguém parecia estar ali, naquele ambiente necessariamente gregário, e essa constatação não lhes parecia causar desconforto, muito pelo contrário.
Entre incrédulo e apático recebo minha pizza acompanhada de um automático “bom apetite”. Uma Margheritta saborosa, porém um tanto fria. Talvez devesse fazer parte do ambiente, mas isso não estava escrito no menu.
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