Facebunker - “Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos bem“

sexta-feira, 25 de maio de 2012
por Jornal A Voz da Serra

Por Leonardo Amando

leonardoamando@hotmail.com

Certo estava o imprescindível Millôr Fernandes, falecido há pouco mais de um mês. De fato, em se tratando de redes sociais, nada mais atual, não obstante o fato de que a assertiva do grande mestre já deve somar uns bons 30 anos, quem sabe até mais.

Na verdade, o que se reproduz nesta frase-título de Millôr com velocidade espantosa é a constatação de que o ser humano—conectado, é importante frisar—vive à margem de sua própria existência, projetado na imagem de um grupo ou de um ídolo, que o baliza, normatiza e, infelizmente, limita. Não se conhece, não se permite conhecer, mantém-se em confortável zona de segurança, enquanto se engaja em compromissos que, de antemão, sabe que não irá cumprir.

Na internet há uma potencialização de todo esse quadro humano, demasiadamente humano. O postulado que afirma ser a web um espelho do mundo real se confirma, ampliado pelo anonimato, pela distância e, quem sabe, pela impossibilidade de um futuro contato presencial entre aqueles que se dispõem a estabelecer algum tipo de relação fora da grande rede, ainda que originada nela.

Chega a ser desconcertante quando essa reversão de expectativas se dá na forma de um encontro inusitado entre dois “facefriends”, ainda que com dia e hora marcada... Aquela relação que foi “construída” virtualmente não raro desaba, confirmando sua frágil estrutura, erguida em cima de uma perfeição, convenientemente estabelecida na superficialidade de um clique. Falamos aqui de pré-conceitos. Afinal, todos carregam suas bagagens, ainda que impalpáveis, não é mesmo?

Mas isso não é um tratado de sociologia. É apenas curioso notar o quanto o ser humano pode ser desbravador, antenado, romântico, culto, politizado, mobilizado... desde que não se precise levantar do sofá, é claro.

Recentes movimentos pedindo “ética na política”, só para citar um exemplo, receberam adesões entusiasmadas na comodidade do ar-condicionado. Na hora do vamos ver ninguém viu nada além de dúzias de gatos pingados, retificando uma rota que já nasceu torta devido à superficialidade das relações. (ok, “dúzias” foi uma benevolência de minha parte...).

Confia-se demais, espera-se demais, entrega-se demais, bravatas são de menos. Ao vivo a vida é outra, e nem todos estão preparados para essa dualidade. Nesse instante, Falcão, líder d’O Rappa, canta alto:

“Qual é a paz que eu não quero conservar pra tentar ser feliz”...

Nesse ambiente, sigo, seguro... até o próximo sábado!

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