Eu não pago IPVA!

Minha irmã foi uma das primeiras a reclamar: “O IPVA está pela hora da morte!”. Coitada, com dois carros na garagem, estava justamente furiosa com o valor do imposto criado no final da década de 60 pelos militares para renovar nossas estradas, com o pompo
sexta-feira, 01 de março de 2013
por Jornal A Voz da Serra
Eu não pago IPVA!
Eu não pago IPVA!

Carlos Emerson Junior

Minha irmã foi uma das primeiras a reclamar: “O IPVA está pela hora da morte!”. Coitada, com dois carros na garagem, estava justamente furiosa com o valor do imposto criado no final da década de 60 pelos militares para renovar nossas estradas, com o pomposo nome de Taxa Rodoviária Única. Rebatizado em 85 como IPVA, ninguém viu melhora alguma, é verdade, mas isso é outra história.
Antes de prosseguir, é bom deixar bem claro que não vou pagar o tal do IPVA, DPVAT, licenciamento, vistoria, seguro, multas ou qualquer outro tributo dessa natureza por um simples motivo: não tenho carro desde 2005 e Nova Friburgo foi uma das maiores responsáveis. Morando em uma cidade onde o clima é ameno, não chove em boa parte do ano, o visual é maravilhoso e, pelo menos do ponto de vista de quem morou (e ainda mora) no Rio de Janeiro, tudo é pertinho, ficou fácil tomar essa decisão.
Na realidade, sempre usei transporte público, mesmo quando cheguei a ter três carros na garagem! O caso carioca é exemplar e mesmo longe da perfeição. Lá você tem ônibus, metrô, trem e barcas para qualquer lugar. No entanto, depois de alguns anos gastando uma fortuna com gasolina, estacionamentos e remédios para manter a saúde e a sanidade em engarrafamentos intermináveis, resolvi dar um basta e vendi o automóvel. Aliás, sequer renovei minha carteira de habilitação.
De cara senti uma enorme diferença no bolso. Melhor ainda foi redescobrir que é possível andar a pé pela cidade! Conheci pessoas que cada vez mais consideram que morar longe do trabalho e guiar em congestionamentos como os de São Paulo, batendo nos 300 quilômetros diários, é um completo estorvo. Minha mulher, um ano após, aderiu e hoje somos um feliz casal sem carro.
Bob Lutz, ex-vice-presidente de BMW, Ford, Chrysler e General Motors, garante que a queda do interesse por automóveis é uma tendência mundial: “A sedução do carro não faz mais sentido e dirigir será um lazer excluído das cidades, como andar a cavalo.” Os depoimentos a seguir, recolhidos em publicações recentes, mostram que esse fenômeno veio para ficar:
“Eu sou mais feliz desde que parei de guiar. Eu sou mais leve, não tenho de me preocupar onde parar o carro, não penso em multas. Na hora do congestionamento falo no celular e ouço música.” (Raí, ex-jogador de futebol, Diário de São Paulo.)
“Claro que numa metrópole muitas pessoas não podem viver sem o carro. Moram longe. O trabalho exige. Ou um parente idoso precisa ser constantemente deslocado. Mas cheguei à conclusão que: 1) estou bem servido de ônibus e metrôs 2) um táxi eventual fica mais barato que um estacionamento 3) não pagar IPVA e seguro automobilístico é uma delícia 4) estou caminhando mais, com mais saúde e menos stress 5) o metrô me dá a chance de almoçar na Pompeia e tomar um café na avenida Paulista. Hoje, sou um feliz sem carro.” (Dagomir Marquezi, jornalista.)
“Fui deixando o carro aos poucos, mais parado no estacionamento do que andando. Acostumei-me a fazer a maior parte das coisas de que preciso a pé e descobri que é possível, sim, viver sem carro. Em último caso, pego um táxi ou chamo a ambulância. Tenho 35 mil motoristas à minha disposição em São Paulo, sem falar em ônibus, metrô...” (Ricardo Kotscho, jornalista.) 
“Não quero mais carro. É uma encrenca. O trânsito vai ficar cada vez mais uma loucura. Estou superfeliz. Atendo a meus clientes sem carro e não tenho estresse.” (Mônica Nobre, designer de interiores.)
Gostaram? No entanto, é bom ter em mente que o transporte público, coração desse estilo de vida, ainda tem que melhorar muito. Precisamos de ônibus, trens e metrôs confortáveis, pontuais e baratos, circulando nas 24 horas do dia, táxis com tarifas mais acessíveis, ciclovias e ciclofaixas corretamente implantadas. Se em Nova Friburgo é possível se deslocar para o trabalho simplesmente andando, que o seja em calçadas bem conservadas, praças arborizadas e vias limpas, sinalizadas e seguras.
Decididamente, não haverá lugar para automóveis nas cidades do futuro. 

carlosemersonjr@gmail.com

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