Projeto social de futebol para as crianças completa meio século de vida, repleto de histórias e personagens
Vinicius Gastin
Em 10 de março de 1963, às 16h, uma reunião na Rua Gustavo Lira deu início a uma bela história que está completando 50 anos. O Grêmio era fundado por Geraldo Leão e Neir Mello, como consta na Ata carinhosamente guardada até hoje. Geraldo tornou-se o primeiro presidente, tendo como vice Ademar Combat. Neir também compôs a primeira diretoria como secretário, ao lado do tesoureiro Valdolino Jarsekes, o diretor de esportes Nelson Pita e o supervisor geral Luiz Nery, um dos fundadores do clube. A partir da iniciativa desses homens a trajetória do atual Clube Comunitário do Grêmio começou a ser desenhada.
Após um período no local de origem, o clube mudou a sede para Conselheiro Paulino, no campo do Nova Friburgo Futebol Clube. Anos depois, o Sr. Alvarez fez um convite a Geraldo Leão para levar o Grêmio ao campo do Conselheiro e assim aconteceu. Quando o Friburgo e o Esperança realizaram a fusão, o presidente do clube comunitário Antônio Português abriu as portas do campo do Pastão para suprir a necessidade de um trabalho social no distrito. Apesar das mudanças de local, a essência do trabalho jamais foi alterada e o projeto social mantém as características e o compromisso com as crianças, há meio século.
O Grêmio recebe crianças de comunidades carentes, de forma gratuita. Vários profissionais colaboraram ao longo dos anos sem cobrar nada, cenário este que começa a mudar a partir da parceria com a empresa de ferragens Isero e o início do Projeto Gol Crescer no Esporte. Com os recursos do patrocínio é possível, por exemplo, pagar uma pessoa para cuidar apenas do campo, que já apresenta melhoras consideráveis.
CONQUISTAS HISTÓRICAS SÃO MOTIVO DE ORGULHO
Os anos se passaram, diversos campeonatos foram disputados e alguns deles marcaram época. O Grêmio foi tetracampeão da cidade sob comando de José Eduardo Siqueira, atual gerente de futebol do Friburguense. Em uma dessas conquistas, o Grêmio bateu o Friburguense no campo do Nova Friburgo pelo placar de 4x2, com dois gols de Bidu, jogador profissional do tricolor da serra. Um pouco mais recente, em 2004, uma outra partida considerada épica. No primeiro confronto, no campo do Pastão, vitória do Grêmio por 2x0 sobre o Nova Friburgo. Na casa do adversário, jogando pelo empate, o tricolor saiu perdendo por 3x0, mas conseguiu igualar o marcador e levou o troféu.
Apesar do sucesso dos jovens jogadores e dos campeonatos amadores de Nova Friburgo, o clube jamais formou uma equipe profissional e apenas disputou competições com os times de base. No primeiro ano de profissionalismo do Friburguense, alguns atletas que vestiram a camisa azul, preta e branca atuaram pelo tricolor da serra.
De fato, a relação entre Grêmio e Friburguense pode ser dividida em antes e depois da gestão do gerente de futebol José Siqueira. Desde 1997, quando Siqueirinha assumiu o comando do futebol, os laços foram estreitados e todos os jogadores com potencial para seguir carreira foram indicados para a equipe da primeira divisão estadual.
A TRADIÇÃO CONTINUA...
A obra de Geraldo Leão e Neir Mello permanece viva e os ideais estão presentes no trabalho desenvolvido no campo do Pastão. O projeto conta atualmente com 150 garotos, entre oito e 17 anos, às terças-feiras, das 7h às 10h, e quintas-feiras, das 14h às 17h. Aos sábados, o time juvenil realiza as atividades. Ao todo, seis professores ajudam na organização e funcionamento do projeto. Com patrocínio da Isero e o início do projeto Gol Crescer no Esporte, os profissionais e colaboradores passaram a receber ajuda de custo, lanche e passagem. Os uniformes também foram fornecidos pela empresa de ferragens e o material fica com a criança enquanto ela permanecer na equipe. Para participar da escolinha é necessário estar estudando. “O Sebastião, da Isero, sempre falou comigo que se eu fizesse um projeto para as crianças ele estaria disposto a ajudar. Ele abriu as portas e conseguimos dar essa ajuda de custo aos professores”, contou o atual presidente Antonio de Souza.
A maioria dos garotos reside nos bairros Floresta, Belmonte, Riograndina e Jardinlândia. A proximidade com o local de treinamentos facilita a relação com a família dos atletas e promove a interação entre ambos. “A gente conhece os pais e, quando vemos a criança seguindo o caminho errado, nós conversamos com eles”, destacou Souza.
AMPLIAR O PROJETO
Assim como todos os projetos sociais e esportivos de Nova Friburgo, o Grêmio encontra dificuldades para manter as atividades. “As autoridades deveriam olhar com mais carinho. Hoje o Pastão é praticamente a única área de lazer e esse trabalho do Grêmio só continua por causa de um ex-atleta, o doutor Samuel Guerra. Ele faz e não comenta com ninguém. Depois da enchente, por exemplo, nem bola a gente tinha e ele nos ajudou”, comentou o presidente do clube.
Outras pessoas tão importantes quanto o doutor Samuel ajudam na manutenção do trabalho feito pelo Grêmio. Os irmãos Thurler, o gerente de futebol do Friburguense e ex-atleta José Siqueira, a Caenf, a Agrolar e a Saf contribuíram com algum material ou serviço. “Às sextas-feiras, nós nos reuníamos e juntávamos dinheiro para pagar o pedreiro”, lembra Souza.
O otimismo, entretanto, segue em alta e novos projetos serão desenvolvidos. Dentre obras e serviços, o presidente Antonio de Souza revelou o desejo de construir salas na parte de cima dos vestiários do Pastão. Outra ideia é fazer um campo de society e reformar as telas de proteção no espaço onde hoje funciona o estacionamento.
“Essa semana eu conversei com um professor e ele, observando o trabalho que desenvolvemos, se dispôs a dar um reforço para os garotos que tiverem dificuldades no colégio. Ele não quer receber nada em troca e vai ajudar uma vez por semana. Meu sonho é construir na parte de cima dos vestiários uma sala para computadores e biblioteca. Já começamos, mas não terminamos. Gostaria também de ter um advogado e um dentista, que seriam muito importantes. Se o poder público pudesse participar disso ajudaria bastante.”
Antonio de Souza e a paixão pelo projeto
Em 6 de novembro de 1991, o sargento reformado da Marinha, Antonio de Souza, perdeu o filho Tony Marlon, em um acidente em frente à quadra da Escola de Samba Alunos do Samba. Criado em Conselheiro Paulino, Tony dedicou boa parte da vida ao Grêmio e o talento abriu portas para o jovem no Botafogo. Entretanto, quando retornou a Nova Friburgo para realizar as últimas provas na escola, a tragédia impediu a continuidade daquele sonho.
“Perdi o meu filho e, quando isso aconteceu, o pessoal dizia que eu iria morrer de tanto beber. Eu vivia junto com esse filho. Aos 15 anos ele foi fazer um teste no Botafogo e ficou. Quando voltou para Nova Friburgo para fazer as provas, acabou falecendo. Foi um baque muito grande pra mim e minha família”, contou emocionado.
Souza recuperou o rumo da própria vida através do futebol, ao receber o convite de Geraldo Leão. O atual presidente do Clube Comunitário do Grêmio aceitou e encontrou nas crianças a motivação para superar a perda de Tony Marlon. “Já pensou você ter um filho, acompanhá-lo desde pequeno e então perdê-lo dessa maneira? Meu refúgio foi o Grêmio, junto com as crianças. Quando eu chego aqui e vejo o sorriso de um ou de outro eu me fortaleço. Quase entrei em depressão, mas o convívio com as crianças me ajudou a superar.”
Os frutos de um trabalho de 50 anos
Ao longo desses 50 anos de trabalho, várias crianças foram tiradas do caminho das drogas e atualmente vivem com dignidade. Além do orgulho de resgatar centenas de jovens, o Grêmio ostenta na história os vários nomes importantes que vestiram a camisa azul, preta e branca. Dentre eles estão o gerente de futebol do Friburguense, José Siqueira, e o volante Bidu. Profissionais do mundo do futebol, eles relembram a época de Grêmio com carinho e destacam a importância do clube para o desenvolvimento profissional e pessoal.
“O início da minha vida dentro do futebol foi no Grêmio. Hoje nós temos o Friburguense como referência, mas naquela época o trabalho do Grêmio se destacava no trabalho de base, principalmente em Conselheiro Paulino. No primeiro jogo pelo clube, eu tinha dez anos e o saudoso Neir Mello fazia um trabalho muito legal. Para mim, o Grêmio era diferente de tudo, tinha uma representatividade grande. Fizemos história, vencemos o campeonato da cidade por quatro anos consecutivos. As minhas portas se abriram através do Grêmio. Lembro de quando nós conquistamos um título e ganhamos uma viagem para fazer um amistoso contra o infantil do Fluminense, nas Laranjeiras. Empatamos por 2x2 e o René Simões me convidou para fazer parte do elenco deles. A grande maioria das amizades que eu tenho começou ali e até hoje nos encontramos para relembrar. O pessoal organizava uma festa e reunia todas as categorias. Éramos uma grande família, todos muito unidos. Os treinadores estavam sempre atentos às nossas notas na escola e, por isso, considero que o clube ajudou muito na minha formação pessoal. É uma pena que depois de tantos anos essas pessoas não tenham uma maior atenção do poder público. Aliás, muitas pessoas fazem coisas grandiosas e não são reconhecidos. Ainda assim, fico feliz com a luta do Souza e sempre que ele me pede algum material eu ajudo com o maior prazer, dentro das minhas possibilidades. Ele e outros colaboradores são abnegados que continuam insistindo até hoje. Estou muito feliz em ver o Grêmio vivo e fazendo o mesmo trabalho da minha época, há 37 anos.” José Eduardo Siqueira, gerente de futebol do Friburguense
“Eu comecei bem novo no Grêmio e tenho um orgulho muito grande em dizer isso por ser o time de Conselheiro Paulino, onde eu fui criado. As condições não eram as melhores, mas o clube brigava por títulos e eu tive a honra de conquistar vários troféus nas categorias mirim, infantil e juvenil. Foi uma época muito boa e tenho que agradecer ao Souza, Geraldo Leão, Caetano, Silvinho, Cirineu, Cláudio, Tildo, o Siqueira e outros. Um momento marcante foi o título que nós ganhamos no campo do Friburgo. Nós comemoramos muito. O treinador adversário era o Tildo e ele colocou um jogador me marcando individualmente, o Leo, e ele me seguia por todos os cantos. Nesse jogo eu fui feliz, fiz um gol de falta e conquistamos a taça. Mesmo jogando no meio-campo, fui artilheiro junto com o Ricardinho, revelação do campeonato e guardo o troféu até hoje.” Bidu, volante do Friburguense

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