Espaço, memória e identidade: por uma história plural e democrática de Nova Friburgo

quarta-feira, 19 de maio de 2010
por Jornal A Voz da Serra

Há coisa de alguns meses, Nelson Bohrer, presidente da Fundação Dom João VI de Nova Friburgo (antigo Pró-Memória), me colocou diante das duas magníficas imagens que ilustram a edição de hoje de A Voz da Serra. Depois de me explicar tecnicamente como foi possível obtê-las, pois são montagens fotográficas e não colagem de gravuras, Nelson me disse que queria que ambas fossem entendidas como uma ‘provocação’ para todos nós que, de um modo ou de outro, vivenciamos em 2010 o espaço ali representado. Como historiadora, e principalmente como historiadora da fundação municipal que cuida da memória de Nova Friburgo, não poderia deixar de aceitar o desafio de refletir sobre o que este trabalho evoca.

Duas intenções na produção destas imagens me parecem claras: em primeiro lugar, é a de fazer-nos pensar na relação passado/presente. E a segunda, que não se desvincula da primeira, é de refletir sobre ocupação humana daquele mesmo local no tempo. Conversa adicional com o autor confirmou isto e nos trouxe outras informações importantes. A foto panorâmica do centro de Nova Friburgo dos nossos dias foi sendo ‘desconstruída’ no computador até que se chegasse a uma paisagem ‘natural’. Para tanto, Bohrer buscou em fontes variadas, informações sobre o relevo e a hidrografia originais, bem como sobre a vegetação nativa e o clima da região. Além disso, fotografou espécimes da flora que foram sendo coladas à imagem. O resultado seria então, uma imagem plausível, do que teria sido aquele local no ‘segundo anterior’ ao início das obras de construção de parte das casas coloniais que dariam origem, em 1820, à vila de Nova Friburgo.

Relação passado-presente

Quando se trabalha com imagens, vale não só revelar as intenções do produtor, mas também as interpretações do observador. No meu caso, vejo naquelas imagens também um convite para diversificar os nossos objetos, constituir novos acervos e renovar as abordagens. Aqueles que se dedicam à história, às ciências sociais e humanas sabem que o conhecimento histórico é uma construção que está sempre sendo reformulada a partir de questões do presente. A história friburguense, especificamente, foi renovada nos anos recentes por estudos que desnudaram mitos como o da ‘Suíça brasileira’; enfrentaram (e vem enfrentando) temas-tabu como o da escravidão; mapearam a experiência industrial e operária da cidade; e inovaram no tratamento das histórias de família e do lazer (das elites, em particular). Esta tendência na produção sobre a história de Friburgo se, de um lado, refletiu os avanços teórico-metodológicos no campo da história, de outro, indicou como consequência prática a necessidade de se redefinir a identidade local e, para isto, apenas os resultados apontados por estes estudos não bastam.

Esta tarefa, para ser bem enfrentada, implica o atendimento de um ‘pré-requisito’: o da preservação da memória. Isto requer, por sua vez, em primeiro lugar, a formulação de uma política municipal de arquivos públicos, sob a coordenação do arquivo histórico da cidade. Documentação pública ou privada de interesse público não pode ser descartada sem critério pois, por lei federal, é parte do patrimônio nacional. Todos nós historiadores – e mesmo qualquer um que já precisou de um documento para fazer prova de qualquer espécie – sabemos da importância destas ‘velharias’; não só documentos escritos, mas qualquer outro tipo de fonte de informação não pode e não deve ser descartado antes de avaliado por uma comissão de descarte. Em segundo lugar, passa também pelo recolhimento ou pela produção de acervos não convencionais – refiro-me aqui, por exemplo, a produção de entrevistas orais no bojo de um programa de História Oral – em suportes variados que permitam ao pesquisador pensar e enfrentar novos temas e novas abordagens; garantir e facilitar o acesso dos pesquisadores às fontes são partes integrantes deste trabalho.

Graças ao arrojo e a persistência de Thereza Albuquerque e Mello, esforço que foi secundado por tantos profissionais que trabalharam em prol da existência do antigo Centro de Documentação Histórica: Pró-Memória de Nova Friburgo (incorporado à Fundação Dom João VI de Nova Friburgo), temos hoje um acervo documental precioso que contribuiu de forma decisiva para que a discussão sobre a história local chegasse a um nível elevado de qualidade, complexidade e consistência. A nova Fundação Dom João VI pretende entrar nesta discussão assumindo três papéis: o de preservador dos documentos históricos originais sob a sua guarda; o de provedor de documentação, que gradualmente vem sendo digitalizada, indexada e oferecida, via site da internet; e, finalmente, o de produtor de pesquisas. O leitor que se interessar poderá encontrar no site http://www.djoaovi.com.br, versão integral deste artigo onde nos referimos aos projetos de pesquisa e de documentação em andamento. Voltemos agora as nossas reflexões sobre as imagens.

Espaço e lugar

A palavra história tem vários significados. Dois deles merecem aqui ser destacados: o primeiro é o de discurso produzido sobre o passado pelos historiadores, a partir de práticas teórico-metodológicas que são – independente das polêmicas e conflitos filosóficos existentes – estabelecidas e reconhecíveis. Mas o ‘vivido’, uma segunda acepção da palavra história, não é narrado, interpretado e compreendido apenas pelos profissionais da história. Estes outros discursos podem e muitas vezes são, no mínimo, matéria-prima de que se vale o historiador para analisar e compreender o seu objeto de estudo.

No campo da geografia desenvolveram-se os conceitos de espaço vivido e lugar, que nos fornecem instrumentos para imaginar que outros discursos podem ser gerados, a partir da observação das duas imagens aqui publicadas. Nestes conceitos, é preciso destacar, as questões da subjetividade e da alteridade – e, portanto, da identidade ou das identidades – são consideradas fundamentais.

O contraste entre a paisagem ‘natural’ recriada e o espaço vivido hoje por nós gerará comentários e reações parecidas ou diferenciadas, por exemplo, entre os leitores? Encontraremos pontos de identificação nestes comentários? A foto panorâmica do centro de Nova Friburgo hoje será reconhecida como a melhor expressão do ‘lugar’ por todos os grupos sociais que habitam a municipalidade? Talvez só uma exposição itinerante destas imagens em espaços públicos e um registro das reações do público possa nos dar respostas consistentes. Ainda assim, fiquemos atentos às cartas dos leitores nas próximas semanas...

Finalmente, a Nelson deixo aqui um desafio: construir novas imagens que retratem momentos intermediários que marcaram transformações expressivas na geografia humana e cultural do local através dos quase duzentos anos de sua conhecida ocupação. Que tal produzir mais oito imagens destas – talvez, uma a cada ano – até o bicentenário da cidade?

* Ph. D. em História pela University of California, Los Angeles (UCLA)

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