Francisco Gregório Filho
Outro dia, ainda madrugada, ouvia o rádio. É isso, liguei o rádio às quatro horas da manhã. Sintonizei em uma das estações da rádio da cidade.
O locutor, com uma voz um tanto impostada, anunciava a hora de quando em quando, tocava músicas solicitadas pelos ouvintes que chegavam a ele, via mensagens pelo celular ou email no computador, ou ainda cartas chegadas pelo correio. O nobre locutor atendia aos pedidos musicais intercalados com mensagens comerciais e vinhetas de divulgação institucional. Com a voz firme e algumas inflexões desconectadas com os sentidos dos textos lidos, fiquei a ouvir esse apresentador de programas de rádio e a pensar em seu roteiro musical formado por canções populares, inspiradas por seus criadores a partir de casos amorosos e aqui e ali, um rasgo de poesia nas letras cantadas por cantoras e cantores apaixonados.
Pois bem, amigos leitores, vejam o que me aconteceu: chorei. Isso mesmo. Fiquei aos prantos quando no ar tocou a música “Não joguem lixo no chão”. Música e letra compostas por um amigo pelo qual tenho grande admiração e o considero um grande criador, um poeta, o compositor Vital Farias. A gravação veiculada pelo programa de rádio foi realizada também por outro amigo (já saudoso, falecido no mês de junho passado em Salvador/BA), Décio Marques, que reuniu sua voz às vozes de um grupo de crianças de uma escola pública que, na minha opinião rendeu um registro sonoro de grande qualidade e altamente comovente.
Repasso aqui minha sugestão para que os amigos leitores desta coluna procurem ouvir o CD do Décio Marques e divulgar essa peça artística e poética para crianças e jovens de nossas escolas. Trago de pronto para vocês conhecerem a letra da canção:
NÃO JOGUE LIXO NO CHÃO
Vital Farias
Não jogue lixo no chão
Chão é pra plantar semente
pra dar o bendito fruto
pra alimentação da gente
O peixe que sai do rio
O amor que sai do peito
A água limpa da fonte
Um sentimento perfeito
Não jogue lixo no chão
Chão é pra plantar semente
pra dar o bendito fruto
pra alimentação da gente
A terra que tudo cria
Não pede nada demais
Ser tratada com carinho
Para vigorar a paz
Não jogue lixo no chão
Nem rios, lagos e mares
A terra é nossa morada
Onde habitam nossos pares
Não jogue lixo no chão
Chão é pra plantar semente
pra dar o bendito fruto
pra alimentação da gente
A natureza é quem cria
O amor imediatamente
Milagre que faz a vida
Bendito fruto do ventre
Se queres sabedoria
Aprenda isto de cor
A terra é a mãe da vida
Útero, ventre maior.
Nasci e cresci ouvindo rádio. Em minha casa o rádio era trabalhador e nos acompanhava nos afazeres do dia. Conhecíamos os nomes dos locutores e identificávamos pela inflexão da voz e o tom de verdade que fazia-nos crer nas maneiras diversas de transmitir uma notícia, ou um comentário parecido com uma crônica.
Apreciava muito o conhecimento que alguns emitiam sobre as músicas escolhidas e seus intérpretes e compositores. Vivia atravessado por aquelas canções que mexiam com os meus sentimentos e me ajudavam a me lançar para as coisas da vida.
Não precisávamos ficar parados para ouvir o rádio. Escutávamos com corpo desempenhando tarefas diversas dentro de casa ou nas varandas, alpendres, jardins e nos quintais. Regulávamos o volume do rádio conforme o desejo ou a distância com que nos encontrávamos dele.
As notícias do mundo, de longe, nos despertavam a imaginação e os comentários quase sempre entre os de casa. O tempo inteiro nos sentíamos impregnados com a poesia e as metáforas das letras das músicas e pensávamos conexões com as nossas vidas. As melodias, muitas delas, moram até hoje em meu corpo, meu coração e em minha mente.
Parte da minha formação como leitor vem desse tempo e dessas escutas que me colaram fundo. Sou um ouvinte de rádio até hoje. Claro, o tempo para a escuta diminuiu muito, mas sempre que dá vontade e tenho disponibilidade estou eu lá com os ouvidos ligados no som do rádio. Também fui um trabalhador de rádio. Exerci as funções de produtor, locutor, discotecário, programador e até de diretor.
Sou um admirador desse fazer da comunicação que reúne e agrega pessoas das mais diferentes origens e status e promove o estado de aprendizado em todos.
Você, amigo leitor, gosta de ouvir rádio? Ainda ouve belas canções tocadas nos programas de rádio de nossa cidade ou isso é coisa do passado? Meus abraços, pedindo licença para sintonizar mais uma estação em meu aparelho sonoro.
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