Espaço de Leitura - Rio+20

sexta-feira, 22 de junho de 2012
por Jornal A Voz da Serra

Francisco Gregório Filho

Amigos e amigas leitoras, bom dia! Vamos partilhar da Rio+20?

Peço licença para neste espaço recebermos poesia. Sim amigos, versos da poeta polonesa Wilalawa Symborska, “Conversa com a pedra” que a mim, me provoca, me instiga a pensar o sentido de minha participação na vida e nas coisas do mundo. Divido com vocês essa leitura.

“Bato à porta da pedra

— Abre, sou eu.

Quero entrar dentro de ti,

olhar tudo ao meu redor,

Respirar-te.

— Vai-te embora — diz a pedra.

Estou hermeticamente fechada.

Mesmo feita em pedaços

estamos hermeticamente fechadas.

Mesmo em areia desfeitas

Não abrimos a ninguém.

Bato à porta da pedra

— Abre, sou eu.

Venho por pura curiosidade.

A vida é a única ocasião para a satisfazer.

Tencionava passar por teu palácio

e depois visitar ainda a folha e a gota de água.

Não tenho muito tempo para isso tudo,

O meu ser mortal devia comover-te

— Sou de pedra — diz a pedra. — Impossível perturbar a minha seriedade.

Vai-te daqui.

Faltam-me os músculos do riso.

Bato à porta da pedra

— Abre, sou eu.

Ouvi dizer que há em ti grandes salas vazias,

nunca vistas, belas em vão,

Mudas, sem o eco dos passos de ninguém.

Reconhece que tu própria pouco sabes disso.

— Grandes salas e vazias — diz a pedra —

só que lá não há lugar.

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Belas, talvez, mas de beleza inacessível

aos teus pobres sentidos.

Poderás reconhecer-me, mas nunca me conhecerás.

Em toda a superfície me volto pra ti,

mas o meu interior volta-te as costas.

Bato à porta da pedra

— Abre, sou eu.

Não procuro em ti eterno asilo.

Não me sinto infeliz.

Não sou um sem-abrigo.

O meu mundo é digno de regresso.

Hei-de entrar e sair de mãos vazias.

E como prova real de ter estado

Não apresentarei senão palavras

a que ninguém dará crédito

— Não entras — diz a pedra.

Falta-te sentido de participação.

E nenhum outro sentido pode substituí-lo.

Nem um olhar onividente

te servirá de nada sem esse sentido.

Não entras. Em ti esse sentido é vaga intenção.

Vago o seu germe, a sua concepção.

Bato à porta da pedra

— Abre, sou eu.

Não posso esperar dois mil séculos

para me recolher ao teu telhado.

— Se não acreditas em mim — diz a pedra. —

Vai ter com a folha, dir-te-á o mesmo.

Com a gota de água e o mesmo te dirá.

Pergunta por fim a um cabelo da tua própria cabeça.

Estou preste a rir às gargalhadas

De rir como a minha natureza me impede de rir.

Bato à porta de pedra.

— Não tenho porta — diz a pedra.”

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