Espaço de Leitura - Olá, ria

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sexta-feira, 04 de janeiro de 2013
por Jornal A Voz da Serra

Francisco Gregório Filho

A Região Serrana há muito tem acolhido durante os fins de ano muitos profissionais da área do livro e da literatura para momentos de descanso e recolhimento. Nova Friburgo, Teresópolis e Petrópolis tradicionalmente recebem escritores, poetas, editores, jornalistas e pesquisadores da palavra que vêm recarregar as baterias para enfrentar um novo ano de muitas viagens e trabalho junto aos seus leitores. Uns poucos mantêm casas em sítios, chácaras ou condomínios afastados dos centros das cidades. Alguns outros conseguem alugar casas por temporadas e outros tantos se hospedam em casas de amigos ou ainda em confortáveis pousadas em recantos agradáveis da região. 
Algumas vezes é possível encontrá-los caminhando anonimamente por ruas dos distritos ou mesmo pelo centro das cidades, com seus bonés, boinas ou chapéus. Caminham à vontade e raramente são abordados por fãs leitores. São abordagens discretas, mais comuns durante as paradinhas para comprar um pão ou para saborear um cafezinho.
Num desses dias de fim de ano em Friburgo encontrei um amigo escritor e aceitei seu convite para uma caminhada pelas ruas do bairro de Olaria. Levamos algumas sacolas de livros para uma amiga que desenvolve ali uma iniciativa de promoção da leitura junto a um grupos de jovens de uma comunidade próxima a sua casa. 
Sacolas recheadas de bons livros de literatura infanto-juvenil, poesia, ficção, para apoiar seu trabalho junto aos jovens, mas um deles, um ensaio, era especial para nossa amiga, cujo título é “O Clube do Livro: ser leitor – que diferença faz?” e foi escrito pela professora Luzia de Maria. O livro, editadopela Editora Globo, fala das vivências da professora em suas oficinas sobre práticas leitoras e ganhou o Prêmio Literário Nacional do Pen Clube do Brasil 2011. Luzia de Maria é doutora pela USP, professora da Universidade Federal Fluminense e autora de quinze livros – ww.luziademaria.com.
Sobre o livro e mais sobre a autora, o pintor Israel Pedrosa escreveu na quarta capa:
“Para os mestres de todos os tempos, saber ver sempre foi um dado primordial para a realização da grade obra pictórica.
Para os filósofos, saber ouvir, também, sempre denotou elevado grau de sabedoria.
Para Luzia de Maria, escutar o que diz a silenciosa grafia do texto – em prodígio auditivo – é parte constituinte de seu labor pedagógico-literário principalmente agora nas paginas de O clube do livro.”
De volta à caminhada pelas ruas de Olaria, paramos numa das boas padarias do bairro para um café e aquela água gelada, quando de súbito, meu amigo retira do bolso uma cadernetinha e um lápis, pronto para uma anotação. Aponta para o outro lado da rua e me mostra, bem na porta de uma casa, uma placa pintada com a palavra Olária. Isso mesmo: Olaria com acento agudo. Após fazer sua anotação, virou-se para mim e disse: ótimo, é só acrescentar uma vírgula – olá, ria. 
Os escritores sempre gostaram esses exercícios com a palavra vindos de observações das ruas, das palavras ditas sem querer, erradas ou com duplo sentido. Uma brincadeira, um jogo que os colocam em prontidão para a escrita. Por isso a presença constante do caderno e do lápis no bolso a acompanhá-los para o registro imediato e claro dessas caminhadas, com o olhar sempre atento para pescar algo inspirador das manifestações populares que os instigue e provoque a registrar ou a compor um novo texto. 

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