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Francisco Gregório Filho
Turma constituída de trinta moços. Meninas, dezoito e meninos doze. Turma formada especialmente para a leitura de poesia. Cabia-me a função de mediador. Apresentar os poemas e estimular as boas leituras com as boas conversas.
Selecionei então sessenta poemas de poetas da língua portuguesa. Distribui os jovens em grupos de dez para as rodas de leitura acontecerem de forma mais intimista.
Daí, após três meses de encontros todos os trinta do grupo tinham lido os tais sessenta poemas. Tempo rico. Mergulho nas palavras e nas metáforas sugeridas pelos textos. Diria que sem exceção, os integrantes da turma—todos eles—contribuíram para o excelente nível das discussões.
A proposta inicial era para um mergulho nos estudos dos poemas, depois é que fomos estudar os autores e seus contextos. Após os quinze encontros de quatro horas cada, as meninas sugeriram desenvolver uma seleção dos dez poemas que segundo elas—foram os mais arrebatadores para os estudos. Digamos assim, uma listagem dos dez que mais cativaram—mobilizaram—para a ampliação do olhar na conexão com o dia a dia deles.
“Todo texto literário compõe-se de certezas e incertezas. O escritor nos oferece informações precisas, concretas, sobre o tema que está desenvolvendo, mas esses dados nunca estão completos. São pistas para o leitor seguir, com muitos espaços em branco para serem preenchidos. O trabalho de leitura é o de completar os vazios do texto, de acordo com a experiência e a individualidade de quem lê. Assim, o leitor é também criador, pois recebe a obra inacabada e dá a ela a feição que melhor serve para ele (e que não é a única, uma vez que cada um faz isso a seu modo”.
Aqui gostaria de enfatizar o meu privilégio de conviver esse período com jovens de 16 anos a 22 anos, inteligentes e extremamente focados em seus interesses e metas: queriam experienciar um exercício de produção de leitura de poesia em grupo. A boa surpresa do final dos encontros foi a de que organizaram um sarau poético e apresentaram aos seus colegas, amigos e familiares em uma tarde memorável que terminou com muita música e abraços.
Bom amigos leitores, posso afirmar que minha participação nessa exitosa experiência foi pequena, porém intensa, exercendo o papel de mediação entre os jovens leitores e os textos. Talvez, ajudando a essas moças e a esses moços a avançarem um pouco mais na compreensão da complexidade humana.
“O mundo do poeta não é um mundo à parte. Vivendo em sociedade, ele conta melhor do que ninguém os desmandos e as dores de cada grupo humano. O poema surge, então como resposta ousada de quem faz da palavra a sua arma.”
Em nosso encontro final informei aos meus queridos moços e moças leitores de poesia que iria escrever uma notícia sobre a nossa experiência e pedi que escolhessem um poema dos estudados para publicar aqui e compartilhar com os assíduos frequentadores desta coluna. Então, por votação, e não por unanimidade, o escolhido foi “A lua no cinema” do poeta do Paraná, já saudoso, Paulo Leminski.
“A lua foi ao cinema,
Passava um filme engraçado,
A história de uma estrela
Que não tinha namorado.
Não tinha porque era apenas
Uma estrela bem pequena,
Dessas que, quando apagam,
Ninguém vai dizer, que pena!
Era uma estrela sozinha,
Ninguém olhava pra ela,
E toda a luz que ela tinha
Cabia numa janela.
A lua ficou triste
Com aquela história de amor,
Que até hoje a lua insiste:
- Amanheça, por favor!”
Leitura recomendada: Poesia fora da
estante—vol. 2 (Coord.)
Vera Aguiar; Simone Assumpção,
Sissa Jacoby. Porto Alegre, Editora Projeto, 2002
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