Espaço de Leitura - O que fazer quando a Tim está fora de área

sexta-feira, 18 de maio de 2012
por Jornal A Voz da Serra

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Francisco Gregório Filho

Gosto das redes sociais, como o Facebook, por exemplo. E o que mais tenho visto nesses últimos dias no face dos amigos do Ceará são reclamações contra a Tim. Algumas são divertidas, outras são bem chatas e agressivas, como se o mundo girasse em torno das operadoras de celular e nada mais importasse na vida. Bom, pra você que nesse momento está furioso, perdendo sua manhã, com o seu Tim, mais uma vez, fora de área, farei uma revelação:

As falhas sempre irão existir.

É inevitável.

No século XIX a Ciência pensava que tinha métodos infalíveis e a Filosofia jurava ter encontrado a Verdade e, que o homem do século XX viveria num mundo perfeito. Sabe o que aconteceu com tanta Verdade? Duas guerras irracionais. Ou seja, o século XX falhou.

Bom, mas agora, estamos no século XXI. Inexplicavelmente tenho uma avó de 94 anos, completamente lúcida, nascida no sertão do Ceará. Imagino que ela tenha sido uma mulher bonita quando moça, mas não posso comprovar isso, porque na década de 20 até meados dos anos 50, a máquina fotográfica quase não existia no sertão, era objeto tão raro, mas tão raro, que não tenho a imagem de minha avó moça.

Com saudade de casa, pego o telefone celular, aqui no Rio, e ligo pro celular dela, sim, de minha avó, no Ceará. Ela sabe que o botão verde é pra atender as chamadas e, além disso, ela também verá minha imagem na tela. Atende. Disse-me que estava triste pela perda recente da irmã (Tia Rita, quatro anos mais velha). Contou-me que eram muito amigas e que gostavam de usar roupas parecidas quando moças. Também me contou que, apesar disso, estava alegre, porque viu a bisneta que nascera recentemente, e que minha mãe levou o celular pra maternidade e trouxe as fotos da bebê que, aliás, leva seu nome, Amélia.

Vovó não anda mais e lamenta muito por isso, porque hoje ela acha tudo tão fácil! Difícil era naquele tempo em que tinha de passar um dia inteiro viajando num cavalo pra levar um filho no hospital mais próximo. Hoje, tudo está a nossa mão, podemos fazer várias escolhas, desde a cor de uma simples roupa até mesmo, como ela fez há alguns meses, pediu minha mãe para comprar uma parabólica porque queria ter mais opções de canais pra poder ver a missa, a novela, o jornal, um filme...

Às vezes, minha mãe e eu ficamos embevecidas diante de tanta lucidez. Como alguém de 94 anos, que teve a vida marcada por dificuldades, que não teve ensino formal, assimila tanto desse nosso tempo de 2012? Acho que a resposta está aí, talvez ela nunca tenha buscado a Verdade. Nem no passado, nem no presente, embora ela saiba que o futuro, para ela, esteja mais breve que para outros.

E sabe o que ela faz quando a Tim está fora de área, fato que está ocorrendo com frequência no Ceará? Vovó pede o fixo e me liga. Nem se preocupa, quem vai pagar a conta mesmo são os filhos.

Mas muito cuidado, se você não tem 94 anos, nem filhos para pagar suas contas, vá passear com seus pais, visite um amigo, converse, leia um livro, garanto que são programas bem mais proveitosos.

Carmelia Aragão

Doutoranda em Leitura—PUC-Rio

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