Já que estamos no mês de Andersen, que tal lermos uma das suas histórias?
O Duende da Mercearia
Era uma vez um estudante que vivia num sótão e não possuía nada, e era uma vez um merceeiro que vivia no rés do chão e era dono do prédio inteiro. Por isso, o duende decidiu morar com o merceeiro que lhe dava papas de aveia.
Uma noite, o estudante entrou na mercearia para comprar queijo, e viu qualquer coisa escrita no papel que o embrulhava. Parou para ler. Era uma página de um livro de poemas, uma página que nunca deveria ter sido arrancada.
— Tenho aqui esse livro — disse o merceeiro. — Comprei-o de uma velha por alguns grãos de café. Ele é seu por seis dinheiros.
— Levo-o no lugar do queijo — respondeu o estudante. É uma pena usar poesias como papel de embrulho! O senhor entende tanto de poesia, como a banheira ali ao canto.
O merceeiro riu e o estudante também; afinal de contas, fora apenas uma brincadeira, mas o duende ficou aborrecido por alguém se atrever a falar assim com quem lhe dava papas de aveia.
Nessa noite, quando todos dormiam o duende entrou no quarto do merceeiro, roubou de sua mulher o dom da fala, pois ela não precisava dele enquanto dormia, e deu o dom de falar à banheira onde se guardavam os jornais velhos.
— É verdade que não entendes nada de poesia? — perguntou.
— Claro que entendo! — respondeu ela. — Poesia é uma coisa que vem no fim das folhas dos jornais. Tenho mais poesia dentro de mim que o estudante.
— Agora vou pôr o estudante no seu lugar! — exclamou o duende. E correu até ao sótão. Olhou pelo buraco da fechadura e viu o estudante lendo o livro da loja. Dele saía uma luz dourada, que virou uma árvore e espalhou seus ramos pelo quarto. Suas folhas eram verdes, cada flor tinha o rosto de uma linda moça, cada fruto era uma estrela luminosa e no ar pairava lindas canções.
Ele nunca tinha visto tal maravilha e ficou ali parado de olhos bem abertos mesmo depois que a luz se apagou, pois parecia-lhe ainda ouvir lindas melodias.
– Que maravilha! Acho que vou ficar no sótão com o estudante — murmurou ele. Mas depois suspirou: Bem... ele não tem papas de aveia.
Voltou então para a mercearia para devolver o dom da fala à mulher do merceeiro, e ainda bem que o fez, porque a banheira tinha quase esgotado o dom de falar, contando todas as notícias dos jornais que estavam guardados dentro dela.
A partir daí, assim que podia, o duende corria até sótão para olhar pelo buraco da fechadura e se sentia feliz.
Uma noite, ele acordou com uma grande agitação à sua volta. Uma casa da rua estava pegando fogo! Todos corriam! O merceeiro pegou seus valores, a mulher seus brincos de ouro e a criada seu xale de seda. Toda a gente salvou aquilo a que dava mais valor.
Num pulo o duende entrou no quarto do estudante, pegou o livro maravilhoso e correu com ele para cima do telhado. A coisa mais preciosa da casa estava salva!
Agora sabia onde deveria morar, a escolha era clara.
Mas, quando o fogo apagou, já mais calmo, bem…
— Divido o tempo entre eles — decidiu. — Não posso abandonar as papas de aveia.
Também nós gostamos de nos dar bem com o merceeiro por causa das papas de aveia.
“Uma noite, o estudante entrou na mercearia para comprar queijo, e viu qualquer coisa escrita no papel que o embrulhava. Parou para ler. Era uma página de um livro de poemas, uma página que nunca deveria ter sido arrancada.”
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