Francisco Gregório Filho
O observador do mercado do livro Felipe Lindoso fez a seguinte indagação por esses dias: Por que as pessoas dizem que conhecem as bibliotecas e não as frequentam?
“O Censo Nacional das Bibliotecas Públicas Municipais, de 2009, nos dá indicações. Apesar de existirem em 99% dos municípios, as bibliotecas são reconhecidamente mal equipadas. Apenas 25% delas têm mais de dez mil títulos no acervo; em 88% delas o acervo só aumenta por doações; apenas 12% abrem aos sábados, e só 1% abre aos domingos. As pessoas sabem que existe a biblioteca, mas não encontram nela o que buscam. O conjunto dos dados mostra que 70% dos que usam bibliotecas são estudantes. Resultados: 67 % dos entrevistados sabem que existe biblioteca, mas apenas 7% as usam frequentemente, e 17%, ocasionalmente. Apenas 26% dos entrevistados têm acesso a livros por meio das bibliotecas. A faixa dos 5 aos 24 anos é a que mais usa as bibliotecas. O esforço para o equipamento das bibliotecas públicas e a instalação de bibliotecas escolares deve ser intensificado. A população não usa mais as bibliotecas porque essas estão muito abaixo do mínimo de qualidade e quantidade de acervo e serviços desejáveis, e isso se reflete nos índices de leitura” (O Globo. Caderno Prosa e Verso, sábado, 7 de abril de 2012, p.3)
E a mídia divulga perplexa e pergunta: O que fazer? Como melhorar esse quadro? São aproximadamente 50.000 (cinquenta mil) títulos publicados pelas editoras no Brasil por ano. Também um pouco mais de 10.000 (dez mil) bibliotecas públicas (federais, estaduais e municipais, universitárias e comunitárias)) espalhadas por todas as regiões do país. São mais de 6.000.000.000 (seis bilhões) de reais aplicados na aquisição de livros para circularem em espaços escolares, bibliotecas, centros culturais, universidades, museus, centros técnicos e instituições privadas. O parque gráfico produz anualmente um volume superior a 600.000.000 (seiscentos milhões) de exemplares.
Muitos trabalhadores se revezam em postos de toda a cadeia produtiva da indústria do livro. São 100.000 (cem mil) empregos diretos. Postos de venda e livrarias chegam a pouco mais de 2.000 (dois mil). Em um país dessa dimensão continental ainda é muito pouco; porém, os números já são significativos.
Ultimamente as pesquisas têm apontado que o brasileiro lê em média 2 livros por ano (começam a ler 4 livros e concluem a leitura de apenas 2 livros).
Percebe-se que há esforços dos governos em delinear políticas para o incentivo à leitura, porém os avanços são ainda muito tímidos. Digo até que são espantosos os diagnósticos que estão sendo produzidos por institutos de pesquisas e divulgados nos jornais e revistas.
Diz a professora Sonia Machado que
“a construção do saber é um processo interno, mas não excludente da interação com o outro e/ou com o meio, e a literatura é esse saber/sabor a ser alcançado só ou com. A leitura partilhada permite leituras de mundo mais abrangentes e um mais rápido desenvolvimento do senso crítico, podendo contribuir para a formação da cidadania na medida em que, na partilha das ideias e emoções, o leitor tem voz e ouvidos para o mundo”.
É fundamental então mais investimentos na educação e em especial na formação de professores-leitores (claro, a melhoria dos salários desses trabalhadores da escola). Sabemos, no entanto, que a escola sozinha não dá conta de constituir uma sociedade leitora, por isso, o termo “desescolarizar a leitura” continua cada vez mais pertinente. Significa que temos que investir também em outros espaços, em novos suportes, em equipamentos, acervos e fortemente em mediadores de leitura nas comunidades das pequenas e grandes cidades brasileiras. É urgente e importante o planejamento e a alocação de recursos para a cultura, as artes e as bibliotecas.
Precisamos entender que as escolas não trabalham só com o aluno, mas interagem com seus pais e todos os familiares e o entorno do espaço e da vida escolar. Portanto a leitura em parques, praças, clubes e em hospitais, no comércio e na indústria, nos diversos veículos de comunicação e nos transportes precisa estar em pauta. A criação de ambientes e o desenvolvimento de ambiências de leitura com a participação de todos os educadores sociais das comunidades, acrescidos de um grande esforço da política pública farão o quadro atual se alterar e aí sim poderemos visualizar um país leitor em plenitude.
“Deixaram-me vagabundear pela biblioteca e eu dava assalto à sabedoria humana. Foi ela quem me fez...” (Jean-Paul Sartre, em “As palavras”. Tradução de J. Guinsburg. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984)
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