Chiquinho da (quanta) Saudade!
*Maria Fernanda Macedo
A primeira lembrança que eu tenho de você é musical, como não poderia deixar de ser. Com uma bermuda rosa, da marca Píer, cantando: “Faltava abandonar a velha escola, beber a vida feito Coca-Cola...”, imitava o Lulu Santos. Eu me lembro de você chegando com um disco novo do Paralamas, o tal do “Alagados”, que eu ainda ia ouvir tantas vezes, reconhecendo tantos gostos.
Você me comunicou a juventude dos anos 1980, cultura em que estava embebida a minha infância. A vontade de ser livre, “solto”—o mesmo gosto que o país começava a experimentar na abertura e que meus olhos de menina registravam com a sua presença fresca de caçula de uma família de nove filhos.
As minhas lembranças suas também misturam-se a cenas da cidade. Do “Fala meu Louro”, bloco que se concentrava no bairro Paissandu e se aninhava, num bolo de gente, ao lado do rio. E no qual você cantava, se minha memória não me engana e puxa a brasa toda para a sua sardinha... De como que eu e Isabela, sua outra sobrinha ainda menor, ficávamos doidas para ir atrás de você, ver “como era”, o que rolava lá para aquele pessoal que usava a blusa do papagaio... Dos carnavais que você queria ganhar, comunicar, “puxar os sambas”. E nos trazia a toda a família—de brinde.
De bicicleta com você, fui pela primeira vez ao Nova Friburgo Country Clube. Meus olhos davam conta da paisagem mais organizada, sofisticada do que o habitual cenário da Friburgo que eu conhecia.
Já maior, nossos circuitos ciclísticos aumentavam e na garupa, atravessa o “além-Paissandu”—mais um cenário que ia se descortinando. O viaduto, a grande obra, ia escorregando em tobogã que dava em um arsenal de flores. Cheiro, cor, vento. A parada-pacata Friburgo poderia ser muito mais em sua companhia. E tudo ficava ali, logo depois da sua outra casa, a escola de samba Unidos da Saudade.
Também tenho lembrança de ouvir das montanhas que você subia como os amigos, Morro da Cruz, Catarina, Cão Sentado. Eu também ficava ansiosa para crescer para isso, galgar mais essa parte da cidade. Juntos, subimos a Catarina Mãe numa louca incursão pela madrugada que reuniu um divertido grupo de amigos e primos.
Do mundo encantado da casa da vovó, lembro de você se arrumando para os bailes de carnaval da SEF e do Country e até do Clube dos 50. Esses eu perdi, infelizmente, e só aproveitei mesmo as matinês. Os bailes não se mantiveram até eu crescer—ou meus pais me liberarem para...
A opção pela escola de samba foi mais uma marca que te distinguia a meus olhos. Toda a família torcia pela Vilage, bairro onde cresceram seus irmãos, mas você ia único e certeiro pela roxo e branco com a paixão que te fazia vivo.
Desfilando pela Saudade, pelo Globo de Ouro e até no Bloco dos Malas, seu mala, te vi tantas vezes na avenida (Alberto Braune), admirada. Nem tanto por estar meio ao show do carnaval friburguense, em cima dos carros de som, impostando o terno branco dos bambas, na ala da diretoria, nem tanto por ser saudado por tanta gente a cada esquina (Oi, Chiqunho!)... mas porque você andava na cadência do sonho de ser quem você queria ser.
Saudade, Tio, saudade. Nem mais tão triste, nem mais tão alegre, bem assim, nos estilo dos sambas—e por que não, como assim também está a cidade—que você me ensinou a gostar.
*Maria Fernanda Macedo é friburguense, jornalista e sobrinha do Chiquinho da
Saudade, falecido em 10 de janeiro de 2012
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