Maria Madureira
De uniforme azul marinho e branco lá íamos, meu irmão mais velho e eu, todas as tardes para o colégio. Diariamente o ritual se repetia: preparar os deveres pela manhã, tomar a lição, banho e uniformes engomados, sentávamos à mesa para o almoço antes da escola.
Nem sempre o menu era o mais desejado, volta e meia lá vinha a abóbora que detestávamos, mas o controle de minha mãe era mortal e qualquer descuido nosso, ela, a abóbora, era bem amassada e misturada no feijão que era para não haver dúvida de que a tínhamos engolido. Dentes escovados, pastas e merendeira nas mãos, caminhávamos pela calçada até a escola.
Enfileirados no pátio da escola, por série, com os meninos na frente, cantávamos o hino nacional e seguíamos pela mesma calçada até à entrada da frente da escola que dava acesso às salas de aula. Carteiras duplas, sentávamos dois a dois, mas as meninas ficavam de um lado e os meninos do outro da sala. O resto era contar com a sorte de ter um bom parceiro que sentasse ao nosso lado.
Dona Terezinha foi minha primeira professora. Foi ela quem me ensinou a ler e a escrever. Com ela aprendi as primeiras letras listadas na cartilha e os números somados e subtraídos, multiplicados e divididos na velha tabuada.
De uma linhagem de professoras tradicionais da cidade, tinha irmãs e primas com o mesmo ofício de ensinar. Dona Terezinha era especial. Muito mais que ler e fazer contas aprendemos com ela. Era exemplo a ser seguido pelos meninos e meninas cujos processos de alfabetização dependiam dela.
No meio das lembranças que tenho desse tempo, entremeadas dos muitos medos e das inseguranças que rondavam meu dia a dia na escola, sempre vem, como contraponto, a figura aparentemente serena e firme de Dona Terezinha que guiava minha mão pelo caderno de pauta dupla com delicada certeza. Sempre bem arrumada, cabelo impecável, com sua coleção de saias plissadas e blusas de crochê e tricô, sempre estava lá na porta da sala a nos esperar. Minha curiosidade era enorme por aquela coleção de lindas blusas coloridas para saber quem as fazia. Alguns diziam que eram feitas por ela e sua família e me fascinava pensar num armário cheio delas.
Apesar de ser educadora, de conhecer diferentes metodologias e ter estudado algumas teorias sobre o assunto, a alfabetização sempre foi um processo mágico para mim. E Dona Terezinha, no meu imaginário, sempre foi a eximia ilusionista, a que conduzia com maestria todo esse espetáculo.
Era assim mesmo, como num passe de mágica, líamos e escrevíamos! Essa parte era a melhor, decifrar nomes, ler os rótulos, as revistas de minha mãe, os primeiros livros nas estantes e desvendar segredos guardados nas gavetas. Escrever os desejos, deixar recados, fazer a lista de compras da feira, o rol da roupa para a lavadeira e ir mais longe, ganhar o mundo pela palavra!
Ainda assim, confesso que a escola não era o lugar em que desejava estar na infância, mas o lugar necessário, como me ensinou meu pai, lugar de aprender. E Dona Terezinha foi quem deu a exata medida dessa afirmação dele quando mais tarde fui buscar caminhos para compreender o lugar da escola na sociedade e na vida das pessoas, e apesar dos pesares, minha própria decisão de ser educadora.
E tinha a maldita da matemática, a insuportável tabuada, lição tomada em casa antes da escola que era para ter certeza de que se havia decorado que um mais um só podia ser dois! Esse era meu desespero e minha angústia, aquele monte de números a aprender e a cada página virada, mais e mais números, e mais difíceis e mais incompreensíveis. Muitas vezes fingi dores de barriga para faltar às provas, adiando o tormento da nota e da confirmação que eu não sabia nada sobre números.
Depois de Dona Terezinha vieram muitos outros professores, mas é dela a lembrança mais presente, a imagem que me conforta as memórias que tenho dos tempos da escola. Recorro muito aos escritos do educador Bartolomeu Campos Queirós que me ajudam a entender esse meu conflito de amor e ódio pela escola. Em seu livro “Ler, escrever e fazer conta de cabeça”* diz um tanto dessas incertezas que a entrada na escola me provocava e ainda me toca hoje quando vejo meninos e meninas de uniforme a caminho da escola:
“Ir a escola era abandonar as brincadeiras sob a sombra da mangueira; era renunciar o debaixo da mesa resmungando mentiras com o silêncio; era não mais vistoriar o atrás da casa buscando novas surpresas e outros convites. Contrapondo-se a essas perdas, havia a vontade de desamarrar os nós, entrar em acordo com o desconhecido, abrir o caderno limpo e batizar as folhas com a sabedoria da professora, diminuir o tamanho do mistério, abrir portas para receber novas lições, destramelar as janelas e espiar mais longe”.
* Ler, escrever e fazer conta de cabeça,
de Bartolomeu Campos Queirós,
da Editora Miguilim, Belo Horizonte, 1996.
Deixe o seu comentário