Acabo de ler “Contos de Natal”, uma coletânea publicada na coleção “Novos Caminhos—Literatura”, pela Landy Editora, com seleção, organização e apresentação de Vilma Maria da Silva. Comprei esse livro no Natal de 2010, com a pretensão de conhecer novas histórias sobre a Natividade. Termino-o, às vésperas do Natal de 2011, com um gosto estranho, próximo ao amargo e da tristeza. Sinais dos tempos? Teria o Natal perdido seu significado nas linhas da literatura?
Algumas histórias do livro acompanharam as situações típicas das diversas regiões brasileiras, muitas distantes da nossa vida urbana e que surpreendem por ver uma celebração tão diferente de nossas ceias e correrias. Outras mostram um Rio de Janeiro diferente, de uma outra época. Outras, ainda, mais clássicas—ou mais conhecidas?—propiciaram uma (re)leitura sempre bem-vinda. Porém, e é aqui que me senti provocada, alguns dos contos—em geral, mais contemporâneos—trazem em suas linhas solidão, tristeza, espanto, dor, amargura...
Não me lembro de ter vivido com tristeza todos os Natais que passei. Nem naqueles anos difíceis da vida, que trouxeram perdas que nada repara; nem naqueles em que o dinheiro era mais curto; nem nos que a família não estava completa por qualquer motivo. Sorte a minha? Talvez... A esta sorte dou o nome de fé! A cada ano continuam a me encantar—e, às vezes, espantar—as luzes dessa festa, os desejos que ela traz e a recordação da especialidade dessa noite (pelo menos aos olhos dos que têm fé).
Comecei, então, a (re)buscar na memória histórias de Natal contadas pela literatura e que não continham esse amargor e lembro-me do deleite provocado por Machado de Assis com sua sensualidade escondida na ponta de um chinelo sob o chambre mostrado na espera das horas em Missa do Galo; de Moacir Scliar que me divertiu com suas situações inusitadas de A noite em que os hotéis estavam cheios; e do desconhecido Jesus, de Humberto de Campos, que me trouxe a realidade de um Deus que se fez homem, tal qual como eu acredito que tenha sido o cotidiano da família de Nazaré.
E continuei lembrando-me do beatinho Anchieta que lá nos inícios do nosso Brasil, a pedido do Pe. Nóbrega, escreveu o Auto da Pregação Universal, que pretendia ser simplesmente um Auto de Natal para celebrar a festa no adro da Igreja e acabou virando a peça teatral mais apresentada naquela época dura da colonização falando, não só do Natal, mas da Salvação trazida por Jesus Menino. Relembrei os versos de João Cabral de Mello Netto, em Morte e Vida Severina, lido na letra e assistido em especial na TV e que foi a base de uma das mais profundas reflexões que já fiz sobre a Natividade. O poeta não se esquivou da vida dura nordestina, mas fez nascer, da pobreza, a beleza de um Deus que teima em estar entre nós. Isto é Natal!
Sem poder deixar de lado as crianças que tanto alegram esta festa, lembro-me do boi e do burro, que Maria Clara Machado pôs à procura do Menino em O boi e o burro a caminho de Belém, texto tantas vezes lido e encenado amadoristicamente nas idas e vindas do Natal. E, por fim, lembro-me de minha primeira incursão nas linhas literárias, em um “autinho” de Natal (cujo texto não me preocupei em guardar na ocasião) escrito a quatro mãos, na máquina de escrever dada por meu pai, para apresentação no salão paroquial. Dele apenas ficaram os mais de 30 anos de amizade com seu coautor, relembrados até hoje com gratidão por ter na vida, mais este milagre de Natal, que é um amigo fiel.
Creio que enquanto pudermos olhar a vida na sua simplicidade, nos seus encontros e desencontros e na sua capacidade de se fazer sempre nova, será possível encontrar o sentido do Natal. Agradeço a muitos por tê-lo colocado em suas linhas; agradeço àqueles que me surpreendem por não conseguir expressá-lo. Agradeço porque creio que este é o único sentimento que pode estar no coração daqueles que têm fé: agradecer porque a Palavra se fez carne e veio habitar entre nós.
Gilda trabalha na Cátedra Unesco de Leitura da PUC-Rio. É mestre em Literatura Brasileira e leitora atenta de livros e do mundo.
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