Espaço de Leitura - Fadas e bruxas - 21 a 23 de janeiro 2012

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
por Jornal A Voz da Serra

Conta um mito grego que há três deusas irmãs, denominadas as Moîras, que personificam o destino. Seus poderes são de tal forma inquestionáveis que nem mesmos os deuses as podem contrariar sem que isto coloque em perigo a ordem universal. Donas incontestes do destino do homem, as três Moîras, cumprem impassíveis, cada uma a sua função: Cloto—a fiandeira—segura o fuso e vai puxando o fio da vida do homem a partir de seu nascimento;

Láquesis—a sorteadora—enrola o fio da vida e sorteia o momento da morte; e Atròpos—a inflexível—corta o fio da vida no momento certo.

Quando Cloto escolhe fios de cores suaves para colocar no fuso, os dias são felizes e amenos, mas quando ela escolhe tecer com fios escuros, os dias se tornam tristes e pesados.

Mas de onde vêm as fadas?

O mito grego acima nos mostra, como seres mágicos povoaram desde sempre, o imaginário popular de forma a aliviar a aridez da vida cotidiana, ou a responder perguntas irrespondíveis como: Quem somos? De onde viemos? Por que morremos? Como somos? Sem sonhos, o homem ficaria paralisado diante de sua própria pequenez e impotência face ao mundo.

Entre as manifestações populares, talvez nenhuma expresse tão bem, nem de maneira tão franca, os sentimentos e necessidades humanas, como os chamados “contos de fada”.

Mas de onde vêm estes seres tão oniricamente humanos, capazes de expressar abertamente sentimentos tão contraditórios como: amor/ódio, gratidão/vingança, ciúme/indiferença, capazes de caprichos fúteis, de amores proibidos e um padrão ético que, em suas raízes, ia, na maioria das vezes, de encontro a nossa moral judaico-cristã?

Na verdade, não temos uma “origem” única para o termo “fada”. Sabemos apenas, que são representações da figura feminina, que etimologicamente a palavra “fada” vem do latim “fatum” que significa destino, fatalidade, e que lhes são atribuídos poderes de interferirem benéfica ou maleficamente no destino do homem.

Para alguns, viriam das Moîras gregas acima citadas. A palavra grega Moîra provém do verbo meiresthal—obter, ou ter em partilha, obter por sorte ou destino. Como sinônimo, temos nos poemas homéricos Aîsia—a condicionadora de vida.

Símbolos da dualidade, comportam-se, sem maiores escrúpulos, de maneira bastante humana, capazes de atos que raramente se assemelham aos das fadas louras, belas, jovens e açucaradas, dos filmes de Walt Disney. Basta darmos uma olhada nas histórias clássicas, para verificarmos que a mesma fada que faz com que uma irmã, ao falar, cuspa pérolas e rosas, faz com que a outra cuspa sapos e lacraias. Ou ainda, que foi uma fada (e não uma bruxa, como nos apresenta algumas versões mais recentes) que tenta lançar, sobre uma princesa recém-nascida, o sono eterno, por um motivo tão frívolo como não ter em seu lugar na mesa do banquete do batizado da princesinha, talheres de ouro como havia para as demais convidadas.

Até o instrumento de trabalho mais associado às fadas, a vara de condão, representa, segundo Antônio Geraldo da Cunha em seu Dicionário etimológico Nova Fronteira da língua portuguesa, esta dualidade; Condão: poder misterioso a que se atribui influência benéfica ou maléfica.

Ocorre, porém, uma transformação radical a partir do século XII, quando inicia-se um movimento religioso o culto à Virgem Maria, com a finalidade de inibir a Reforma Luterana e as seitas mágicas;

Colocadas a serviço da moralização social e cristã, as fadas sofrem, então, uma polarização; todo seu lado “mau” é canalizado para a figura da bruxa, ficando para elas todo o conceito cristão do “bom”—pureza, bondade e assexualidade.

Para a Inquisição, esta cisão torna-se uma maneira eficaz de controlar mulheres sábias que são logo tachadas de “bruxas” ou “feiticeiras” e, na maioria das vezes, desaparecem nas fogueiras.

Ao nível literário transformam-se em motivo de aspiração mística-amorosa, o Ideal Absoluto em que deveria se espelhar toda a mulher que procurasse uma realização plena. Este idealismo, que atravessou séculos com o apoio da moral cristã, chegou até o Romantismo como ideal do “amor eterno e puro” (sonho ainda tão presente em nossas novelas, filmes e romances contemporâneos).

Como todas as manifestações culturais populares, os contos de fada vêm sendo atualizados de modo a servir aos propósitos da cultura e do tempo em que são contados.

Maria Clara Cavalcanti, contadora de histórias do Confabulando e especialista em Literatura Infantil e Juvenil

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