Francisco Gregório Filho
“Para o amigo Gregório ofereço os causos da mestra que ensina a ‘dançar a vida’, com carinho, Teresa Drummond”. Assim recebi um presente precioso neste início de 2013.
Chegou-me às mãos, trazido pelo carteiro da agência dos correios próxima de minha casa, um livro com a biografia de Maria Antonietta Guaycurús de Souza, a grande dama dos salões. O livro tem como título “Enquanto Houver Dança” editado pela Bom Texto Editora – www.bomtextoeditora.com.br .
Não se pode falar em dança de salão no Brasil sem falar em Maria Antonietta. Amazonense, transferiu-se para o Rio de Janeiro com a família quando tinha catorze anos. Após exercer diferentes ocupações, tornou-se instrutora de dança na Academia Moraes em 1945 e desde então sua arte lhe atende em duas necessidades fundamentais: a de sobreviver e a de “existir”. Mesmo quando a dança de salão perdeu força com a invasão da música pop, Maria Antonietta resistiu: continuou dando aulas e apoiou uma nova geração de professores, entre eles Jaime Arôxa e Carlinhos de Jesus.
Maria Antonietta resgatou a arte e o prazer de dançar no salão; graças a ela, hoje a dança a dois rodopia por todo o país. “Enquanto Houver Dança” oferece ao leitor não apenas a trajetória marcante dessa personalidade da cultura popular brasileira, como também um panorama cultural das gafieiras e de seus frequentadores.
“Frequentadora da Estudantina Musical desde a sua inauguração, em 1978, conheci a grande mestre da dança de salão. Daí a biografia: uma admiração cada vez mais profunda ao longo dos anos e o desejo de contar esta história de contrastes, cheia de peripécias. Um livro que registra a trajetória de vida, a personalidade, as fantasias e a dura realidade, a partir de relatos de Antonietta, alguns familiares e amigos.” Isso é o que nos conta a autora do livro, Teresa Drummond, que nasceu em 1963 e se diz “carioca da gema do Méier”. Ousa, segunda ela, a linguagem poética desde os onze anos. Escreveu e publicou vários livros de poesia e prosa, sempre premiados. É autora do Projeto Poeta Saia da Gaveta, no qual promove eventos culturais e organiza a série de Livros Caleidoscópio. Atualmente realiza oficina de poesia, mas foi dançando que conheceu a personagem que lhe inspirou Enquanto Houver Dança (informações contidas na orelha do livro). Livro bem editado e com os cuidados de supervisão editorial de Cristina Portela e coordenação de Patrícia Mafra. Belíssima homenagem e com a qualidade da escrita de Teresa Drummond.
Uma leitura encantadora que recomendo com alegria. Também conheci a professora Antonietta nos salões das gafieiras Elite e Estudantina – a primeira localizada na região do Campo de Santana e a segunda na Praça Tiradentes, ambas no Centro do Rio de Janeiro.
Acompanhei em muitas ocasiões minha saudosa e querida mãe Heliete e um grupo de suas amigas a esses salões. Elas eram assíduas frequentadoras dessas gafieiras e gostavam de dançar, tocar violão, cantar e tomar cervejas geladas. Tempos bons, de boas memórias. Aprendi e dancei muito com essas mulheres alegres e festeiras.
Em Nova Friburgo, também frequentei, com um grupo de amigos e amigas, clubes do Centro e do Caledônia, além de um salão de festas em um casarão no distrito de Banquete, do município de Bom Jardim. Festas animadas com bons músicos a executar as boas canções a noite inteira. Tangos, boleros, sambas, valsas, foxtrot, guarânias, baião, xotes, chorinho, modinhas e até cirandas. Tudo para se dançar a dois. Sempre tive muita sorte de encontrar ambientes de respeito e muita delicadeza, nunca encontrei ou testemunhei circunstâncias de constrangimentos. Encontrei sim, bons amigos que vinham das cidades vizinhas como Monerat, Duas Barras, Santa Maria Madalena, Trajano de Moraes, Cordeiro e Cantagalo.
Amigos interessados em dançar e se divertir em harmonia e paz. Moças excelentes dançarinas e bem educadas. Bons tempos que não voltam mais, não é?
Enquanto houver dança, vá saber, sim? Vamos dançar?
E Teresa acrescenta em poema dedicado a Maria Antonietta:
“O mundo é torto, distorcido e tolo. Entanto,
Se o tempestuoso vento sopra,
Antonietta dobra a esquina dançando.
Ginga contra a dor; ginga contra o túrbido sonho.
Ginga em tom azul tecendo as margens do salão.
Galhos que balançam em compasso vário,
Multiplicando os passos e gerações.
É tempo que não conta tempo.
É último, é fibra furta-cor.
É vida “viva”!...
Eterno fruto melando a boca de nosso povo”.
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