As estradas parecem trilhas, mas são caminhos para muitas histórias passarem. Pelas trilhas, lá no alto daquele morro,
passa boi, passa boiada...
também passa o lavrador que trabalha na enxada,
passa moça formosa, passa mulher casada
também passa Zé mané, com a cueca remendada,
passa gente aventureira procurando uma morada.
Lá no alto daquela serra, as estradas margeiam os rios. Rios caem no espaço, fazendo cascatas. São águas arlequinadas!
Rio Grande desce a serra, caminha na mata, explode em alegria na Cascata Pinel... Não!
na Cascata Santa Izabel.
Por quê? Porque, lá no alto daquele morro,
onde passa tanta gente, onde se faz caminhada,
passou até uma princesa
muito bem acompanhada.
Era o passeio da Princesa com o Conde, em pleno mês de maio, com o mato arrebentando em flor, pelo caminho do rio para ver de perto a beleza do Rio Grande, os saltos de todos os tamanhos que sua água dá. Chegou bem perto da beira, para ver a cachoeira...
Jogou uma pedra n’água
tão pesada que foi ao fundo.
Os peixinhos de lá gritaram:
- Viva D. Pedro II!
Sorrindo, a princesa
Jogou outra pedra n’água,
e o que viu foi uma beleza
a água desenhando um nome:
Era o nome da princesa.
A gente até pode ouvir o tempo perguntando pro tempo: Quanto tempo, nas trilhas do tempo, as histórias permanecem?
E o tempo respondendo por tempo: Por aqui, muitas coisas ficam perdidas, mas muitas mais ficam guardadas... Por muito tempo!
A história da Princesa Izabel ficou. Ficou registrada, gravada nas memórias e no granito. Na margem direita do rio, perto do trampolim das águas, está escrito: “Cascata Santa Izabel, 20 de maio de 1868”.
Foi por sua beleza, que ganhou o nome da Princesa e até hoje cheia de alegria, como se fosse criança no escorrega, a água vai cantando em coro com as pedras e o vento até encontrar seu leito e se deixar levar para outras histórias, outras aventuras e—quem sabe?—um conde, um rei, outra princesa... uma criança.
Quem tiver que veja. Quem tiver ouvido que escute... Quem tiver coração que sinta. Pois só o tempo poderá responder pro tampo, que o tempo tem tanto tempo, quanto tempo o tempo tem...
E as histórias? As histórias também.
A visita da Princesa, às terras do Morro Queimado, ficou escondida pelas plantas, pelo musgo por muito tempo.
Ficou encoberta... não esquecida.
Raquel Nader, (nesse caso) escritora.
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