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Francisco Gregório Filho
Outro dia fui procurado por um grupo de jovens muito curioso e interessado em conhecer minha biblioteca e meu arquivo pessoal.
Curiosidade para conhecer e fazer uma leitura própria sobre meus rascunhos, borrões, recortes e rabiscos, enfim, meus guardados. Tinha interesse também em minhas correspondências, fotografias e agendas pessoais. Uma professora pesquisadora havia estimulado esses alunos para uma experiência nesse sentido.
Gostei muito de receber e entabular uma conversa com esse grupo inteligente sobre os conceitos que embasam teoricamente as práticas de produção de memória pessoal, social e política. Fiquei surpreso com rapazes e moças tão jovens e já com tanta bagagem de informação sobre os procedimentos mais pertinentes a serem adotados frente ao material a ser recolhido sobre a vida e o trabalho de um escritor—seu arquivo pessoal. Mais perplexo ainda fiquei com o que já tinham recolhido sobre minha produção e minha atuação como militante cultural.
A etimologia da palavra arquivo nos remete à ideia de traçar um caminho a ser percorrido por outros, muitos direcionamentos os quais devem ser seguidos:
“a palavra arquivo guarda na sua origem grega, o sentido de palácio, residências dos principais magistrados. Por isso a origem semelhante arconte (nome que designa os magistrados da antiga Grécia). O verbo grego do qual se origina a palavra significa ‘ir à frente, guiar’. Daí também archote que ilumina, que abre caminho.” (Cury, 1993, p.87)
Claro que me dispus encantado a conversar com esses curiosos jovens e a beber de suas sabedorias. Trouxeram-me reflexões sobre a importância desses exercícios que transpus para a vida social e cultural de uma cidade.
“O estudo em arquivos ou acervos nos reitera que voltar os olhos para a releitura do passado adquire sentido se o nosso olhar nos trouxer também uma compreensão iluminadora do presente. E como a pesquisa em arquivos, mais do que qualquer outra, pressupõe a mão que recorta e re-une, mais do que qualquer outra também encerra, em mosaico, a memória e a história do pesquisador e da crítica de forma mais explícita.” (Cury, 1993, p. 88)
Bom, caros leitores, com essas conversas com o grupo vou aprendendo de forma prazerosa a perceber melhor novas redes de relações com os amigos, os espaços em que moramos, trabalhamos ou frequentamos. Aos poucos vou pensando se devo mesmo abrir meus arquivos para estudos como esse, mas devagar e cheio de dúvidas e a me perguntar se, de fato, há importância nesses meus guardados. Minha biblioteca é pequena e meus arquivos, numa certa desordem organizada, creio, não são grande coisa. Evidente que reúnem peças singulares para contar minha história pessoal.
“Reler os arquivos e acervos é fazer ecoar as vozes, de novo cheias de juventude, dos escritores, embora já carregadas dos timbres da produção futura já conhecida do leitor. Pode significar adentrar a pessoalidade do escritor, na forma como organizou sua biblioteca, nos objetos que conservou, nos bilhetes de teatro que guardou e que nunca são mudos para o olhar atento que os escolhe e relaciona. Fazer falar a fontes é voltar o olhar para as ruas das cidades em cujos calçamentos ainda ressoam os passos de escritores e intelectuais e os seus sonhos de mudança. É procurar ouvir o murmúrio dos que lotavam as salas de teatros e cinemas, dos que acompanhavam com paixão a leitura de manifestos, dos que riram com os espetáculos de circo. É de novo ouvir o aplauso do público ou acompanhar pela imprensa o percurso de determinada palavra.” (Cury1993, p. 90)
É, amigos leitores, será que os senhores e as senhoras permitiriam que jovens assim tivessem acesso aos seus arquivos e memórias e produzissem uma leitura crítica sobre seus “coisários” tão bem guardados por vocês?
Leituras sugeridas:
A pesquisa em acervos e o remanejamento da crítica, de Maria Zilda Ferreira. Editora Manuscrítica, São Paulo, 1993
História e Memória, de Jacques Le Goff. Editora da Unicamp, Campinas, 1990.
Guilherme Augusto Araújo Fernandes, de Mem Fox, da Brinque-Book, São Paulo, 1984.
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