Aqui vai mais uma das curiosas e
deliciosas histórias do baú da Raquel
Mão de luva
Uma caixa. Um tesouro. Um segredo.
Na cruz de ouro, em pedras preciosas, uma letra M. da outra só a lembrança de um dia ter existido. Manoel, o nobre, Maria, a princesa.
Foi assim que ela ficou sabendo que ele não a esperava mais. Foi assim que terminou a procura do encontro, do abraço, do beijo.
Faz muito tempo, um jovem num cavalo de príncipe de conto de fada, corria mundo, cobrindo distâncias de aventuras.
Faz muito tempo, um olhar de princesa encurtou sua viagem de distâncias e ele embarcou no sonho das descobertas do amor.
Longa caminhada dos olhos do coração. “Tão grande paixão para tão curta vida”, diria o poeta.
Mas o barão, o visconde, o conde, o marquês, o duque e o rei disseram não.
Não era ele o marido escolhido para a princesa, para o reino, para a exploração bem planejada das gentes de Portugal e do Brasil.
Não! Nunca o Marquês de Santo Tirso seria rei de Portugal!
Não! gritou o Marquês de Pombal. Nunca! confirmaram os outros.
Planejaram o golpe, acusaram-no de regicida, prenderam-no nos porões, espoliaram-no de seus bens, torturaram, condenaram, proclamaram:
— O Marquês de Santo Tirso não é marquês, não é nobre, não possui bens. Não tem direito nenhum. Morte ao Marquês!
Não o mataram—tiram-lhe a vida:
Manoel, no cárcere escuro à espera de que o levassem ao navio dos deportados, vê a porta semiaberta deixar passar um vulto, preta capa, preto capuz... Maria... Dos olhos, duas lágrimas. Das mãos uma cruz de ouro: “M”aria e “M”anoel em pedras desenhados. Da boca um beijo na mão. Na voz: “Te amo para sempre!”.
As mãos de Manoel recolhem as lágrimas, recebem o beijo, seguram a cruz. Uma luva guarda, para sempre, o beijo. No peito se espalha a dor.
Saudade... Nunca mais.
Maria, a Piedosa, morreu “a louca” nas terras do Brasil dizendo: eu vim te encontrar e você não me esperou...
Manoel virou lenda nas histórias e caminhos das serras do Morro Queimado. Descobriu ouro, enterrou tesouros, juntou cores e crenças, libertou perseguidos, inventou vilas, trilhas, vigílias, armadilhas e ficou.
Ficou para sempre na memória de muita gente: Mão de Luva de venturas, desventuras e aventuras.
Mas essas
Muitas caixas. Muitos segredos. Tantos tesouros.
Raquel Nader
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