Entrevista - Marcos Cunha

quinta-feira, 23 de setembro de 2010
por Jornal A Voz da Serra
Entrevista - Marcos Cunha
Entrevista - Marcos Cunha

Um fabricante de florestas

Marcos Cunha é um empresário de São Pedro da Serra, sétimo distrito de Nova Friburgo, de um ramo a que não se presta muita atenção como negócio, embora muito se fale em preservação do meio ambiente. Em uma pequena propriedade de 30 mil m2, na localidade de Bocaina dos Blaudt, ele planeja produzir 300 mil mudas de árvores de espécies nativas da região, em 2011.

Marcos mora e trabalha em São Pedro há 15 anos, local que considera “um paraíso”, por só haver pequenas propriedades, não existir desemprego nem crianças fora da escola, diferente de regiões próximas de municípios vizinhos. Ele afirma que uma das consequências dessa realidade é o fato de só se ter notícia de três homicídios na localidade, nos últimos 18 anos. Há tempos, desenvolve parcerias com escolas da região, desenvolvendo atividades práticas com os alunos, no sentido de levá-los a conhecer a biodiversidade local.

Paranaense, acompanhou diferentes momentos das atividades agrícolas no Brasil, desde sua infância, nos anos 1950. A Eco 92, realizada no Rio de Janeiro, facilitou-lhe uma síntese de toda a vivência que teve relacionada com o meio rural, o que o levou a uma guinada em sua trajetória de vida. A conversa com ele é uma reflexão sobre o uso da terra, sobre preservação ambiental e sobre questões sociais.

A Voz da Serra – Como começou essa sua ligação com a terra?

Marcos Cunha – Meu pai foi um pioneiro na exploração daquelas terras do norte do Paraná, um cara que economicamente foi bem sucedido, então, nós tínhamos educação e todos os confortos que existiam na época, mas éramos do meio rural, éramos da terra, da roça. E eu continuei sendo uma pessoa da roça, embora tenha tido que me adaptar a diferentes situações. Vivi muitas transformações, mas sempre com o olho do homem do campo. E, quando vim para cá, depois de mais de 20 anos, consegui, de novo, estar de volta às raízes rurais, só que de outra maneira. Sem capital, não se consegue ter uma propriedade grande. E nem sei se isto seria vantajoso. É melhor termos muitas propriedades pequenas e todas elas produzindo um pouco. Assim, consegue-se que a região seja melhor socialmente e uma série de outras coisas. Aqui tenho uma propriedade pequena, com 30 mil m2, mas continuo sendo um produtor rural. E o que se pode fazer para viver com esses 30 mil m2, a maior parte dele sendo montanha, área que não se pode aproveitar? É preciso que se especialize em algumas coisas. Eu poderia ter feito agrofloresta, mas para isto precisaria de mais gente. Então, você precisa se especializar para ter um aproveitamento melhor. Comecei, então, a plantar muitas árvores frutíferas, para transformar essas frutas em doces e geleias – o que faço até hoje, embora em menor escala –, planto algumas coisas para corte como o palmito real, que vendo para restaurantes e coisas assim, produzo, ainda, alguma coisa de massa, mas hoje o meu forte é a produção de mudas nativas, que não precisam de espaços muito grandes e me dá uma rentabilidade e uma sustentabilidade ótima para a propriedade.

AVS – E onde você vai buscar as sementes, nessas matas?

Marcos – É. E aí passa-se a trabalhar também em um sistema extrativista, mas um sistema extrativista em que não se tira exterminando, mas duplicando, triplicando, quadruplicando essa matéria que se tira da mata.

AVS – E você não vende apenas para quem deseja fazer algum arranjo paisagístico em casa, para quem mais você vende as mudas?

Marcos – O foco é a restauração. Todo o trabalho que faço aqui visa à restauração, senão o que aconteceria seria plantar somente ipês, patas de vaca, árvores bonitas, de flores, para paisagismo. E não é isto que faço. Produzo aqui entre 80 e 90 espécies de árvores da Mata Atlântica, sendo que a maior parte não é de árvores de valor paisagístico, mas que têm uma importância fundamental na diversidade biológica. Uma Imbaúba, por exemplo, não vale nada em termos paisagísticos, nem como madeira, mas para os parâmetros do meu trabalho ela vale tanto quanto um Jequitibá, que é uma espécie de top de linha da floresta. A Imbaúba é um Fusquinha, e o Jequitibá, um Jaguar, mas, para mim, a importância dos dois é a mesma, porque para se formar uma floresta é preciso ter diversidade, é preciso ter o maior número possível de espécies para que a floresta possa funcionar, isto é, atrair animais, atrair insetos, para permitir que um animal que venha comer uma semente dessa Imbaúba traga no intestino uma semente de um Jequitibá de outro lugar e, com isso, colonizar a área com outras espécies. Este é o foco do trabalho que fazemos aqui. Por isso temos essa grande variedade de espécies, com a finalidade de formar floresta. Principalmente, matas ciliares, as florestas de beiras de rios. A meta de todo mundo que trabalha com restauração é preservar a água, que é o insumo que está indo embora rápido. As matas ciliares preservam a água, fazem com que fique mais limpa. Pense no seguinte: esse riozinho ali atrás, anos atrás tinha três vezes mais água do que hoje. E por quê? Porque se construíram muitas casas, desmatou-se muito, fizeram-se muitas lavouras, que precisam ser irrigadas. E tudo isto conspira para que a água diminua. E, se não se mantém a mata, a pouca água que houver, fica suja. E o custo para limpá-la para alguém beber lá embaixo é muito maior. Além disso, se não se planta nas margens dos rios, as chuvas trazem mais terras para os leitos dos rios, que, assim, sobem, o que provoca enchentes. Todos esses problemas podem ser prevenidos com a mata ciliar, por isto ela é a mais procurada no trabalho de restauração.

AVS – E essas mudinhas que estão aqui são todas árvores, podem se tornar grandes árvores por aí?

Marcos – Com certeza.

AVS – E os compradores delas são pessoas que estão querendo restaurar alguma área.

Marcos – Infelizmente, ainda – e eu espero e acredito que isto vá mudar – as pessoas que plantam fazem isto porque estão sendo obrigadas, não porque tenham consciência, porque compreendam a necessidade. Ou elas provocaram algum impacto ambiental derrubando alguma floresta e foram multadas e obrigadas judicialmente a replantar, ou são empresas que vão construir e causar um impacto e precisam diminuir esse passivo. Por livre e espontânea vontade são poucas pessoas. Até porque sai caro. A muda em si não é cara, mas plantar e manter por dois ou três anos até ela se formar custa caro. Quem precisar plantar um hectare, vai precisar de duas mil mudas variadas, no mínimo 40 espécies. Em alguns lugares, a legislação já exige 80 espécies diferentes por hectare, como o estado de São Paulo. É preciso um projeto, que seja aprovado na Secretaria de Meio Ambiente do município. E quem plantar sem essa aprovação está sujeito a multa, porque é preciso que a vegetação usada na restauração esteja de acordo com a que já exista no lugar. Uma vegetação daqui não existe, por exemplo, em Macaé. Por este motivo é necessário que se faça, em primeiro lugar, um levantamento para se saber o que é nativo daquele lugar, tanto do que ainda existe hoje, quanto do que já existiu, é preciso pesquisar tudo isso. A partir daí é que se produzem as mudas para aquele lugar específico.

AVS – Você teve uma vivência que lhe permitiu acompanhar uma série de mudanças econômicas e ecológicas: saiu da plantação de café no norte do Paraná, andou por Mato Grosso, pela cidade do Rio de Janeiro. Explique um pouco dessa caminhada e do que você aprendeu nela.

Marcos – O Paraná tinha de 63% a 67% coberto por florestas nativas. O norte do estado era praticamente todo coberto por florestas nativas, no sul é que havia uma parte de campos cultivados. Hoje, o território do Paraná tem 6% de floresta, incluindo aí um município chamado Telêmaco Borba, que tem a maior área reflorestada do país. Houve, então uma modificação fantástica, de ecologia, de clima, de solo. Para pior, é claro. E eu participei disto, pois nasci em 1947, em Londrina, no Paraná, e depois fomos para Paranavaí, onde meu pai foi um dos fundadores. Era tudo mata, que foi sendo aberta para serem feitas as lavouras de café. Derrubava-se a mata, ateava-se fogo no que tivesse restado plantava-se o café e fazia-se lavoura no meio do café, plantava-se arroz, milho, isto para consumo. Derrubava-se para plantar café até os anos 70, quando havia um incentivo muito grande de parte do governo federal, na época do regime militar. Davam tanto dinheiro que era possível plantar café, comprar mais terras. Lá pelo final dos anos 70, já havia essa mudança climática que me levou a sair do Paraná, depois que fizeram a hidrelétrica de Itaipu, com aquele lago enorme, que causou um distúrbio no clima da região. Três ou quatro anos depois, tivemos um ano seco, em uma região em que nunca havia faltado chuvas. E isto foi uma tragédia para o cafeicultor: quem tinha café perdeu tudo, eu e minha família, inclusive. E aí fomos para Mato Grosso, [hoje Mato Grosso do Sul] onde também tínhamos terras e plantamos soja e arroz. E também pegamos lá dois ou três anos de uma seca intensa, que inviabilizou a lavoura. Entre sair do Paraná e ir para Mato Grosso do Sul, entre 1972 e 1974, passei uma época ao norte, em Matogrosso, na época era um estado só. Ali, naquela época do “Brasil, ame-o ou deixe-o”, com incentivos enormes, vi grandes proprietários comprando áreas enormes e transformando em pastagens, em um período de um ano. Vi, em Rondônia, uma fazenda de 20 mil alqueires ser toda transformada em pasto...

AVS – E a diversidade biológica...

Marcos – ...foi pro brejo. E isso era padrão e continua sendo. E existia interesse em que fosse assim, com o apoio de muitas linhas de crédito.

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