Em Córrego Dantas sobram dificuldades—mas desistir nunca

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
por Jornal A Voz da Serra
Em Córrego Dantas sobram dificuldades—mas desistir nunca
Em Córrego Dantas sobram dificuldades—mas desistir nunca

Henrique Amorim

Lá se vão quase 400 dias da maior tragédia climática da história de Nova Friburgo e as imagens dos deslizamentos de encostas e enchentes, obviamente, não saem da memória de quem vivenciou o evento. E quem mora ou trabalha nos locais mais afetados ainda luta para dar a volta por cima. É o caso de muitos empresários do bairro Córrego Dantas, que acreditam no potencial do lugar e tentam reerguer seus negócios ali mesmo, deixando de lado as reclamações e procurando, cada um, fazer a sua parte para restabelecer a rotina no bairro às margens da RJ-130 (Nova Friburgo-Teresópolis).

O empresário Marcos Almeida, da San Marcus Estofados, por exemplo, lamenta os poucos investimentos no lugar neste pós-tragédia, o que dificulta o acesso dos clientes. Ele conta que antes o Córrego Dantas integrava um polo do circuito turístico Tere-Fri devido às muitas lojas e fábricas, três transportadoras e mais de dez confecções ali localizadas. Hoje lamentavelmente se observa no bairro o “turismo da tragédia”. São visitantes que procuram o bairro para filmar ou fotografar cenas impactantes de deslizamentos e do transbordamento do córrego, hoje um rio, que dá nome ao lugar.

Marcos ficou 45 dias com a empresa fechada logo após a tragédia, levou sete dias para tirar toda a lama da sua fábrica de estofados, no subsolo do showroom, e não pensa em ir embora do lugar mesmo tendo deixado de vender muitos móveis desde a triste data. A frequência de clientes caiu consideravelmente, afirma ele.

“Muita gente desiste de vir aqui por causa da lama em dias de chuva com o despejo de uma enxurrada na pista próximo ao Hospital São Lucas. Quando a chuva para, fica a poeira, que é outro transtorno”, observa Marcos, que abriu ano passado uma filial em Olaria.

O empresário também sofre com a baixa na média de pedidos de clientes de fora. Antes da tragédia as entregas de móveis no Rio de Janeiro eram feitas a cada 15 dias. Depois da tragédia as viagens à capital caíram absurdamente. Mas quem disse que tudo isso é motivo para desistir?

Empresário quer lançar campanha para valorizar o que o município tem de melhor

Marcos Almeida já deu a largada na tentativa de mudar a imagem de Nova Friburgo, deixando de lado a lama e a tragédia e investindo na beleza natural da cidade. Para tanto, ele já se encarregou de postar nas redes sociais uma série de fotos das muitas e raras belezas friburguenses, conseguindo muitos adeptos.

“Que tal fazermos o mesmo? É preciso valorizar o que temos de bom. E Nova Friburgo tem muito de bom sim. Temos um ar-condicionado natural, uma natureza de total beleza, com montanhas e áreas ainda intocadas e de pleno verde e muitas flores. Precisamos postar isso nas redes sociais e fazermos uma campanha positiva para trazer os turistas de volta e fazê-los saber que Nova Friburgo está viva e funcionando”, diz Marcos.

O empresário lembra que “muita coisa há para ser feita sim, mas nem tudo foi atingido”, valoriza, tentando apagar a imagem de destruição a que Nova Friburgo foi associada na mídia nacional.

Empresa de acessórios para lingerie teve queda de 35% no faturamento, mas acredita na recuperação da cidade

Os empresários Roberto Fernandes de Oliveira e Gilson Rodrigues de Faria, da RG Designer—que fabrica acessórios para lingerie e que está baseada no Córrego Dantas há seis anos—tinham tudo para mudar de endereço após o evento climático. Da empresa foram retirados dezenas de caminhões de lama.

Roberto conta que não faltaram propostas e tentações para abandonar tudo e recomeçar as atividades da RG em outra cidade após 15 dias sem luz e 75 sem telefone e internet. Otimistas, os empresários não titubearam e decidiram se reerguer em Córrego Dantas, onde a empresa se solidificou.

“Confesso que foi uma decisão difícil, pois temos clientes em várias regiões do Brasil e a maioria tem receio em nos fazer novos pedidos, principalmente em quantidades maiores. É natural a dúvida que um novo evento da natureza possa nos impedir de honrarmos nosso compromisso”, conta Roberto, que amarga queda de 70% em média na clientela local. O faturamento do ano passado fechou com 35% a menos que o esperado.

“Mas não tem problema. Vamos conseguir superar essa fase e investir na recuperação de Nova Friburgo. O povo daqui tem disposição para o trabalho. Por que não criar novas oportunidades gerando emprego e mais distribuição de renda?”, questiona Roberto, que mesmo ante a crise mantém 45 empregos diretos e 20 indiretos.

O empresário observa que falta “injeção de ânimo” em toda Nova Friburgo. Roberto lamenta que logo após a tragédia muitos funcionários se demitiram e deixaram a cidade para tentar a vida em outro lugar. “O trauma coletivo ainda persiste. Muitos ainda parecem estar anestesiados. O cenário ao nosso redor ainda é muito triste. É preciso obras de reconstrução para mudar a imagem do bairro. Cada um deve fazer a sua parte”, sugere.

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