Vinicius Gastin
Mais uma vez, a festa na Maratona de São Paulo, disputada no último dia 19, foi queniana. Rumokol Chepkanan (2h14m18s) e Paul Kangogo (2h14m37s) desbancaram os adversários e confirmaram a fama dos africanos no atletismo. Dos seis competidores que subiram ao pódio, cinco eram do Quênia. O intruso na comemoração foi Edmilson Santana, que percorreu os 42 km de prova em 2h20m20s. Um baiano com raízes cada vez mais fortes em Nova Friburgo foi o melhor brasileiro entre os milhares de corredores que participaram do evento.
"Os quenianos moram em lugares altos, acima de dois mil metros. Se você estiver a 1.700 metros, como a cidade de Nova Friburgo me possibilita, faz uma diferença enorme durante a corrida”, garante o atleta.
Essa é a principal justificativa para a escolha de Nova Friburgo. Aos 27 anos, Edmilson Reis Santana nasceu em Jacobina, na Bahia, e morou em Belo Horizonte até 2013. Ao descobrir o potencial para treinamentos do Estado do Rio, mudou-se em janeiro para Teresópolis. Desde setembro, Edmilson mora na cidade, em Conselheiro Paulino, com a esposa e o filho. No entanto, passa a maior parte dos dias no Caledônia.
"Pra mim é melhor, devido à pista no Friburguense e a possibilidade de treinar no Caledônia. O meu amigo, Ledir, libera o sítio para que eu more e faça o trabalho por lá. No Brasil, são poucas as cidades que oferecem uma altitude boa para treinos. A cidade também é próxima do Rio de Janeiro e outras cidades”, justifica.
Da capoeira ao título da Meia-Maratona do Rio
Edmilson começou a praticar esporte em outra modalidade, bem diferente do atletismo. Não demorou e ele percebeu que o futuro não seria a capoeira, embora tenha descoberto a nova paixão enquanto buscava se aperfeiçoar na dança.
"Comecei a correr com meus primos e amigos em Jacobina para me preparar para a capoeira. Comecei a gostar, e corria descalço, inclusive. Parei com a capoeira e comecei a me dedicar somente ao atletismo.”
À época, o baiano tinha apenas 14 anos. A cada competição, os resultados mostravam que o esporte poderia não ser apenas um hobby. Depois de um ano de treinos regulares, o talento levou Edmilson a sonhar mais alto no mundo do esporte. Com 15 anos de idade, ainda na cidade natal, ficou entre os 30 primeiros colocados, o terceiro na faixa etária entre 15 e 19 anos.
No entanto, as dificuldades financeiras frearam os planos do corredor no primeiro momento. Com a mesma disposição em que cruza os asfaltos pelo país, enfrentou os obstáculos, e aos 22 anos, começou a se destacar em competições de alto nível.
"Eu trabalhei em Belo Horizonte até os 22 anos. Depois eu parei e comecei a dedicar o meu tempo à corrida. Hoje estou mais tranquilo e consigo sobreviver apenas da corrida, através da equipe a qual faço parte, a Appai” (Associação Beneficente dos Professores Públicos Ativos e Inativos do Estado do Rio de Janeiro).
O investimento valeu a pena. Em 2010, Edmilson foi 5º colocado na Meia-Maratona do Rio de Janeiro. Campeão por duas vezes em Vitória, o atleta ganhou destaque em outras competições até conquistar o maior título da carreira: a Maratona do Rio. "Foi a minha grande conquista. Ano passado fui quarto em São Paulo, e esse ano fui terceiro.”
No Rio de Janeiro, o brasileiro venceu com o tempo de 2h17min14s, e desbancou o favorito Elijah Kemboi, do Quênia, que atingiu a marca de 2h17min29s. O brasileiro Antônio Lima, do Cruzeiro, foi o terceiro com o tempo de 2h18min18s. A largada da Maratona aconteceu na Praça do Pontal Tim Maia, no Recreio dos Bandeirantes, passando por Barra, São Conrado, Leblon, Ipanema, Copacabana, Botafogo, Flamengo e chegada no Aterro do Flamengo.
O encanto de Edmilson Santana por Nova Friburgo parece fortalecido a cada dia. Satisfeito com as condições de treinamento, o atleta compara a estrutura à encontrada na equipe do Cruzeiro, um das mais fortes do país no atletismo.
"Já fui atleta do Cruzeiro, onde atuei durante todo o ano passado. E posso dizer que a estrutura que eu tenho hoje é bem melhor aqui em Nova Friburgo. Em termos de apoio, também estou mais tranquilo. A pista e a altitude também são aspectos positivos”, garante.

Edmilson no lugar mais alto do pódio na Maratona do Rio: "Conquista mais importante da carreira”
O sonho olímpico de Edmilson
Corredor tem planos ambiciosos e revela: "Quero morar aqui até o fim da carreira”
O próximo desafio de Edmilson será a Volta da Pampulha, em Belo Horizonte. "Tenho o sonho de vencê-la”, revela. Às vésperas de mais uma competição de alto nível, o corredor encara uma rotina intensa de treinos e costuma ficar isolado por praticamente 30 dias no alto do Caledônia. O dia começa às 6h, com o café da manhã reforçado e treino pela manhã. Após o almoço, breve descanso e mais uma bateria de treinamentos. Além da pista de atletismo, o Friburguense vai ceder a estrutura da academia de musculação e a piscina para auxiliar na preparação. O atleta percorre, em média, 28 a 30 km por dia, e "desce” apenas para visitar a família. Em seguida, retorna aos treinos.
"São 30 dias treinado e dormindo, fora a preparação que é feita antes. O Friburguense me dá total apoio para treinar, mesmo quando eu chego fora do horário. Ele entende a distância. Tem também a Domiciana, a minha treinadora, e o Edson Gomes, que me dão todo o apoio necessário. A minha família entende bem, eles já sabem como é o meu trabalho. Eu vou em casa rapidinho, dou a assistência necessária e volto”, conta.
O próximo passo, segundo ele, é competir fora do país. Edmilson planeja correr em Roterdã para tentar o índice olímpico. "É o meu grande sonho, assim como o de todos os atletas. Estou mais perto do que longe de realizá-lo.” O corredor conta com a ajuda de sua equipe, a Appai, que já deu sinal verde e garantiu as despesas com a viagem. A partir de agora, seja para onde for, Edmilson carregará Nova Friburgo na bagagem e no coração. "Pretendo treinar aqui até encerrar a minha carreira. Aqui é muito bom para morar, treinar e pretendo dar continuidade em Nova Friburgo.”
Um pouco mais sobre a Appai
A Associação Beneficente dos Professores Públicos Ativos e Inativos do Estado do Rio de Janeiro (Appai) funciona como uma instituição sem fins econômicos. Fundada em 1986, tem como principal objetivo ajudar na promoção do bem-estar e qualidade de vida.
Além do apoio a atletas como Edmilson Santana, a entidade disponibiliza benefícios como Educação Continuada, Revista Appai Educar, Jurídico, Seguros, Dança de Salão, Coletivo Médico Ambulatorial Básico, Passeio Cultural, Caminhadas e Corridas, Coletivo Odontológico Ambulatorial Básico, além de parcerias e convênios especiais.

Próximo desafio é buscar a vitória na Volta da Pampulha, em Belo Horizonte

Após conquistar resultados expressivos em competições de alto nível do país, Edmilson sonha com as Olimpíadas

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