EDITORIAL: Missão para adultos

terça-feira, 26 de janeiro de 2016
por Jornal A Voz da Serra
(Foto: Easa Shamih)
(Foto: Easa Shamih)

O CONFLITO entre forças policiais e traficantes no Alto de Olaria, semana passada, culminando com a morte de dois jovens, de 15 e 18 anos, reacende a questão do tráfico de drogas no município e as inevitáveis consequências com agentes policiais nesta lamentável convivência. Perdem as famílias enlutadas, perde a sociedade.

AS MORTES provocadas por conflitos envolvendo adolescentes acionaram, há muito tempo, um sinal de alerta ainda sem resposta adequada das instituições, da família, da escola e das comunidades. Mas a violência juvenil repetida, quase banalizada, produz também outros danos cotidianos, com sequelas físicas e também psicológicas nas vítimas, nos familiares de agredidos e agressores e nas pessoas que com eles convivem.

ALÉM DO perverso recrutamento de adolescentes para o tráfico, jovens agridem-se na escola, nas ruas, em clubes, em jogos de futebol. O mais banal dos motivos é capaz de provocar enfrentamentos não só individuais, mas ações em grupo. Passou da hora de o Brasil enfrentar a epidemia de violência a partir da verificação de causas, para que as reações não sejam apenas as punitivas.

É O RESULTADO da perda de referências, limites e respeito mútuo. Multiplica-se um fenômeno que envergonha o Brasil. Os jovens entre 15 e 29 anos já são as principais vítimas das mortes por armas de fogo no país, numa tragédia em grande parte explicada pela degradação provocada pela guerra das drogas e pela disputa de espaços. Mas, fora desse contexto da criminalidade, há também uma propensão à violência entre adolescentes sem qualquer relação com delinquentes e entre as mais variadas classes sociais.

É EVIDENTE, pelos indícios disponíveis, que a agressividade vem sendo potencializada pela postura de expressivo contingente nas redes sociais. O mundo virtual, com tudo o que contribui para comunicar e aproximar, acaba por agregar também a outros tantos fatores o estímulo à agressão, à disseminação do ódio, à transformação de debates em duelos e à transposição de comportamentos antissociais para a vida real. O anonimato muitas vezes oferecido pela internet ganha rosto, nome e sobrenome no desfecho de casos como os citados acima.

PARA COMPREENDER e enfrentar o que se passa, o Brasil poderia copiar experiências de institutos de direitos humanos espalhados pelo mundo que tentam interferir direta e positivamente, via redes sociais, em debates que possam fomentar o ódio, a discriminação e a intolerância. Estes, servem  como exemplo de abordagem, sempre no sentido da pacificação. É óbvio dizer também que família, escola e seus entornos não podem apenas se indignar com o que ocorre. É preciso agir, em mutirões, para que os próprios jovens sejam propagadores de paz e tolerância. Mas essa é, essencialmente, uma missão para os adultos.

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