EDITORIAL - Ganho perverso

segunda-feira, 28 de abril de 2014
por Jornal A Voz da Serra

O LUCRO registrado por quatro bancos brasileiros em 2013 chegou a US$ 20,5 bilhões. Os bancos Bradesco, Itaú, Santander e Banco do Brasil atingiram, juntos, lucro maior que o Produto Interno Bruto (PIB) de cerca de 80 países, a maioria nações da África, Ásia e Oceania, mas também na Europa e América Latina. Nada mal para os acionistas dessas instituições. 

SEJA COM inflação baixa ou alta, juros em queda ou subindo, população com renda menor, desemprego, economia patinando em termos de crescimento, qualquer partido político governando o país, pelo menos uma coisa não muda no Brasil: o lucro estratosférico dos bancos. Anualmente, os bancos brasileiros apresentam lucros inimagináveis, invejando inúmeros governos em todo o planeta.

NÃO CUSTA nada lembrar que o setor bancário era o que mais temia a chegada de um partido de esquerda ao poder. Especulavam, na época, sobre a criação de impostos sobre seus ganhos, que seriam destinados a programas sociais num governo mais voltado para a grande maioria dos brasileiros. Como se vê nos sucessivos governos do PT, nada mudou. Ou melhor: para os bancos, mudou para melhor.

POR QUE os bancos ganham tanto neste país? De acordo com analistas financeiros, porque o governo depende dos pés à cabeça destas instituições para se financiar. Grande parte dos recursos dos bancos é emprestada ao governo. Em troca, eles recebem títulos públicos federais, que pagam juros altíssimos, atualmente na casa de 16,5% ao ano.

COMO EM muitos países, os bancos são os donos do jogo. O governo tem que pagar juros altos para poder continuar contando com estes recursos. Em outros, o dinheiro emprestado pelos bancos aos governos é apenas uma fonte complementar de recursos. Aqui não. Sem os recursos dos bancos, o governo fica na pior. Nenhuma outra atividade oferece um ganho tão expressivo. No exterior, quando uma empresa apresenta margens de lucro de 6%, 7% ou 8% sobre o patrimônio líquido já é uma festa. A questão é que os bancos brasileiros têm tarimba para lucrar em qualquer cenário econômico. 

PARA COMPENSAR qualquer perda, os bancos mexem e remexem nas tarifas que cobram do cliente para emitir um talão de cheques, cuidar da conta ou fazer uma transferência entre contas. Como  o Banco Central não fiscaliza ou estipula preços de tarifas, cada um cobra o que quer. Cabe ao cliente escolher a tarifa mais baixa. Mas, como trocar de banco no Brasil dá trabalho, muita gente nem olha quanto está pagando. O resultado é que as tarifas continuam altas.

O AJUSTE feito pelos bancos para não diminuir os lucros reflete, evidentemente, no bolso do consumidor, e na transferência dos serviços para máquinas eletrônicas, desestimulando qualquer integração com seus clientes. O resultado é observado nas intermináveis filas, no atendimento despersonalizado e na indiferença. Os exemplos estão espalhados por todas as agências, inclusive as de Nova Friburgo. O governo, indiferente, segue em frente, felizmente para os bancos e o azar da população.


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