Carlos Emerson Junior
Se você estiver lendo esta crônica significa que, ao contrário do que os intérpretes das profecias dos Maias afirmaram, o mundo não acabou no dia 21 de dezembro, para decepção de muita gente boa que não vive sem a maratona de eventos, festas e, é claro, compras que tomam todo o nosso tempo (e dinheiro) no último mês do ano.
Imagino o prejuízo que o cancelamento do final dos tempos não provocou! Teve gente que construiu abrigos subterrâneos à prova de terremotos, explosões nucleares e quedas de meteoros, outros investiram em embarcação insubmersíveis, equipadas para suportar um longo e tenebroso Dilúvio. Milhares de pessoas viajaram em vigília para locais místicos como Alto do Paraíso, em Goiás, a Península de Yucatán, no México ou até mesmo Machu Picchu, no Peru.
Aliás, teve até quem procurasse abrigo em Brasília, talvez por acreditar que a nossa capital, no centro do continente sul-americano, seja realmente à prova de qualquer coisa. Pensamento semelhante deve ter norteado a turma que se reuniu para beber até cair, contando com o efeito anestésico do álcool.
Um minuto após a meia-noite do dia 22, a turma do contra logo se manifestou: “Faltou vontade política”, “A culpa é da imprensa”, “Não dá para confiar nos Maias” e a cruel “Se o fim do mundo foi esse fiasco, imagina a Copa de 2014”! Gente, menos, por favor. Eu sei que todos esperavam alguma coisa com efeitos visuais espetaculares, mas não podemos nos esquecer que seria a última coisa que veríamos e depois, caput, como dizem os alemães.
De minha parte, fiz tudo errado, naturalmente. A dispensa aqui de cada estava completamente vazia, não tinha a mínima ideia onde estavam os fósforos e velas, a água disponível só dava para meio dia, o rádio de pilhas estava sem pilhas, meu estimado e prático canivete suíço sumiu e, para piorar, descobri que a ração da cachorra havia terminado. Caramba, que vexame, logo eu que vivo escrevendo sobre kits de sobrevivência para catástrofes.
Para alguns amigos queridos e minha mulher em particular, fim do mundo pra valer seria ficar sem internet. Imagine você à postos no Facebook, pronto para narrar e comentar seus últimos momentos e, de repente, o sinal desaparece, deixando-o inexoravelmente isolado e pior, sem saber se o mundo do lado de fora ainda existe! Nossa, isso sim é uma catástrofe!
A turma do Twitter, principalmente as celebridades que tem milhares de seguidores, ia literalmente endoidar e fico só imaginando a revolta do cidadão que encheu a cara por conta da efeméride, saiu dirigindo seu carro e não consegue saber pelo microblog a localização exata da blitz da Lei Seca. Não ia ter bafômetro que desse conta de tanta gente. Não, meus caros, em qualquer situação, ficar sem internet é o fim do mundo, só perdendo mesmo os 50º de sensação térmica no Rio, fora do ar condicionado.
Aliás, essas temperaturas altíssimas que marcaram o final de dezembro na Cidade Maravilhosa e até mesmo a nossa querida e serrana Nova Friburgo, não seriam um aviso que o fim do mundo já chegou e está em pleno andamento? A garotada mais nova pode não acreditar mas houve um tempo que fazia frio no inverno do Rio e no verão daqui. Não é mentira de cronista não, juro!
O pior é que nesse caso, os responsáveis não serão civilizações perdidas, o misterioso planeta Nibiru ou uma epidemia de zumbis e sim nós mesmos, agredindo irresponsavelmente o meio ambiente, sem lembrar que para ação, há uma reação. Já conhecemos a fúria dos elementos, sabemos que a natureza é indomesticável e não sei se quero passar por uma coisa dessas outra vez.
Enfim, se o mundo não acabou, já estamos em 2013 e a atenção de todos os meus conterrâneos friburguenses está voltada para a tão esperada recuperação da nossa acolhedora cidade. Agora temos que olhar para frente, com confiança e muita esperança, arregaçar as mangas e trabalhar muito. O fim do mundo, vamos combinar, fica para daqui a uns dez anos. Ou até descobrirem outra profecia de algum povo perdido.
carlosemersonjr@gmail.com
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