Este livro é o coro das vozes daqueles que fizeram parte da Blank Generation—cena musical de Nova Iorque e Boston, começando com o Velvet Underground nos anos 60, passando por Stooges, MC5, New York Dolls etc, até o nascimento do punk com os Ramones, na segunda parte dos anos 70, e as bandas que despontaram no clube CBGB’s: Blondie, Talking Heads, Television e os próprios Ramones. É o relato de músicos, produtores, amigos, namoradas e etc. As entrevistas são dispostas em estilo pós-moderno, com trechos não passando de um parágrafo ou dois, misturados uns aos outros, proporcionando ao leitor uma leitura plural dos assuntos e dando um efeito semelhante ao de uma narrativa.
Não sei ao certo se “Mate-me por favor” é atraente para aqueles que não têm interesse por rock ou interesse sociológico gratuito em geral; de qualquer forma é um retrato precioso de uma geração, que não se encontra em nenhuma outra obra. Conta-se no livro, por exemplo, que em certo momento da carreira dos Stooges, quando a gravadora já estava cogitando seriamente a possibilidade de cancelar seu contrato, o vocalista Iggy Pop, no palco, vestido de bailarina, resolve brigar com um sujeito que estava jogando ovos nele. Ele toma uma surra mas continua o show. Iggy descobre mais tarde que aquilo era uma iniciação de uma gangue de motoqueiros. Em entrevista a rádio para promover o segundo show na cidade, Iggy resolve então convocar toda a gangue de motoqueiros para o evento, “se eles forem homens o suficiente”. E chama também um grupo de amigos seus, para formar seu próprio “exército”. Resultado: desde o primeiro instante do show, os motoqueiros jogavam no palco todo tipo de coisa—garrafas, vasilhas, pedras, facas, cintos e sapatos—e o pessoal “de apoio” que estava no palco, por sua vez, jogava de volta os cacarecos na plateia. Foi o último show dos Stooges...
O nome do livro é uma referência a uma camisa usada por Richard Hell, na qual ele escreveu “Please Kill Me” (mate-me, por favor). Conta Hell que, certa vez, alguns fãs se aproximaram dele, olharam para a camisa e lhe disseram: “Você está falando sério? Se você quiser, nós podemos fazer isso”. Assustado com o olhar insano que os fãs dirigiram para ele, Hell nunca mais usou a camisa.
Abaixo, um trecho do livro. O relato é de Jerry Nolan—ex-baterista do New York Dolls e do Heartbreakers.
“Elvis estava usando uma jaqueta branca, calças pretas largas com uma prega—branca por dentro, com um bordadinho branco. Estava com sapatos bicolores, brancos em cima e pretos dos lados, sapatos de rock and roll. Acho que ele usava uma camisa de lamé prateado de manga curta. E usava um cinto de fivela, um cintinho fininho, pra ficar cool.
“Fiquei completamente excitado. Todo mundo ficou excitado. Eu nunca tinha visto alguém fazer um show como aquele. Eu estava quase sem graça. Era chocante. Eu estava ainda mais interessado na minha irmã. Ela estava gritando e pulando. Fiquei estupefato por ela estar fazendo aquilo.
“Numa hora, Elvis se jogou de costas, meio que fazendo uma abertura de pernas, com uma perna apontada direto pra mim. Pude ver que o sapato dele estava gasto. Talvez fosse simplesmente o favorito dele, e ele não quisesse deixar de usar. Mas também fiquei com um pouco de pena, pensando que talvez ele fosse pobre. Mas adorei. Achei que ele se parecia com um verdadeiro garoto de rua de Williamsburg.
“Este show, embora aos 10 anos de idade, realmente mudou a minha vida. Fui dominado por Elvis. Fui dominado pelos músicos. Pude sentir o que é tocar música.
“Mas acima de tudo lembro de duas coisas daquele show: minha irmã perdendo completamente o controle e o buraco no sapato de Elvis.”
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