Do advento do som à dublagem no Brasil

A evolução da arte de representar usando apenas a voz
domingo, 07 de junho de 2015
por Jornal A Voz da Serra
(Reprodução)
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Dublagem é a substituição da voz original de produções audiovisuais (filmes, séries, desenhos animados, telenovelas, documentários, reality shows, etc) pela voz e interpretação de um ator de voz quase sempre noutro idioma. Há também dublagem no mesmo idioma, usada para melhorar a entonação do som original, algo utilizado principalmente em comerciais e musicais, ou quando há alguma falha na captação de som direto, nas produções audiovisuais.

É feita em estúdios de dublagem, com profissionais diversos, dentre os quais os dubladores que são aqueles que, com sua voz e interpretação, substituem as vozes de obras estrangeiras por uma versão nacional. O termo “dublagem” vem do francês “doublage”, que significa substituição de voz.

O começo

Os primeiros filmes sonoros apareceram em 1925, mas o cinema começou a “dublar” somente em 1927 com o filme The Jazz Singer - O Cantor de Jazz, que incluía algumas falas. Porém, o primeiro filme totalmente dublado foi Luzes de Nova York, lançado em 1929.

O advento do som causou uma revolução nos cinemas europeu e americano. A fala dos personagens, que até então eram representadas por cartelas e podiam ser traduzidas para todos os idiomas, enfrentaram o primeiro desafio. Como a legendagem, a princípio, não obteve bons resultados, pensaram em filmar as cenas em vários idiomas com os mesmos atores ou com outros atores de diferentes partes do mundo. Esta solução, no entanto, não era economicamente viável. Mas, em 1930, Jacob Karol inventou um sistema de gravação que permitia sincronizar áudio e imagem. Era o nascimento da técnica que seria chamada de dublagem.

O recurso da dublagem permitiu o aprimoramento da qualidade sonora dos filmes, visto que os equipamentos de filmagens eram extremamente barulhentos, o que nem sempre permitia uma boa captação do som. Foi também uma boa solução para as tomadas externas em condições adversas.

As vantagens da dublagem não se resumiram às questões técnicas. Os diretores encontraram um meio de elaborar melhor a interpretação vocal dos atores, sem aumentar os custos de produção com refilmagens. A dublagem permitia regravar cenas tantas vezes quanto fossem necessárias até se chegar ao nível de interpretação imaginado pelo diretor do filme.

A maior vantagem do advento da dublagem talvez tenha sido a possibilidade que ela proporcionou aos artistas falarem em muitos idiomas, o que abriu um grande campo de trabalho para outros tantos artistas em muitas partes do mundo.

No Rio, o primeiro estúdio

Primeiramente os desenhos animados começaram a ser dublados para o cinema, o que permitiu ao público infantil entender e se deliciar com as grandes obras do cinema de animação. No Rio de Janeiro, em janeiro de 1938 começaram as gravações, nos estúdios da CineLab, em São Cristóvão, da dublagem de Branca de Neve e os Sete Anões, com intervenção direta na organização dos trabalhos dos profissionais de Walt Disney. Essa produção marcou o início das atividades da dublagem brasileira, seguido por outras criações do mesmo estúdio como Pinóquio, Dumbo e Bambi. Outra dublagem original marcante foi a do clássico ... E o vento levou.

Os filmes brasileiros já contavam com a dublagem para corrigir a precariedade do equipamento de som disponível nas produções da década de 1940 e 1950 e tornou-se natural fazer o mesmo trabalho para os filmes estrangeiros. Com o sucesso da televisão, a necessidade de dublagem para a tela pequena se tornou imperativa e aos poucos os brasileiros se acostumaram à ideia, quase inconcebível na época, de grandes astros de Hollywood falarem português.

Entre 1958 e 59, foi fundada a Gravasom, em São Paulo, uma associação da Screen Gems subsidiária da Columbia Pictures. A série Ford, que apresentava pequenos dramas de 30 minutos, foi a primeira série dublada apresentada na televisão brasileira. Depois vieram Rin-Tin-Tin, Lanceiros de Bengala, Papai Sabe Tudo e outras. Até há pouco tempo, todo o elenco de dublagem de um filme trabalhava junto, pois só havia um canal disponível para as gravações das vozes. Hoje, os dubladores atuam separadamente.

Dubladores de clássicos que o cinema consagrou 

Telmo de Avelar participou da primeira dublagem realizada no Brasil, interpretando o Príncipe Encantado no desenho animado Branca de Neve e os Sete Anões. Já o ator Orlando Drummond, 95 anos, (o seu Peru, da Escolinha do Professor Raimundo) voz de Scooby Doo por 38 anos, entrou para o Guiness por este trabalho. Outro caso interessante é o elenco principal da série Harry Potter, que permaneceu o mesmo desde o primeiro filme, com as vozes evoluindo ao mesmo tempo em que dubladores e atores foram crescendo. No início, adultos faziam as dublagens de crianças. Atualmente, crianças e adolescentes dublam crianças e adolescentes, como no caso de Harry Potter, Ben 10 ou a versão recente de Karatê Kid.

Os primeiros elencos de dublagem foram integrados por radioatores. Eram vozes consagradas na época pelo sucesso das radionovelas. Entre outros profissionais que realizaram trabalhos marcantes na dublagem brasileira, está Ida Gomes, dubladora oficial de Bette Davis. Outra profissional dona de voz inconfundível é a atriz Maria Helena Pader que dubla entre outras, Meryl Strepp, Glenn Close, Judi Dench, Anjelica Huston, Fran (Família Dinossauro), e a impagável personagem Evelyn Harper, interpretada por Holland Taylor (mãe do personagem de Charlie Sheen em Two and half men). 

Nas séries havia a voz de Borges de Barros, como o Moe, de Os Três Patetas, e Professor Smith, em Perdidos no Espaço. O diretor e ator global Dennis Carvalho trabalhou em Túnel do Tempo, e nos anos 1980, Garcia Júnior ficou conhecido pela dublagem de MacGyver e He-Man, e Waldyr Sant’anna pela notável dublagem de Homer Simpson. Orlando Viggiani, Nizo Neto e Manolo Rey são conhecidos por dublar Michael J. Fox, em De Volta Para o Futuro, para o cinema, DVD, e para exibição em avião, respectivamente. A dublagem de Chaves, inicialmente muito criticada, acabou sendo cultuada pelos fãs, na voz de Marcelo Gastaldi. 

A lista de talentosos dubladores brasileiros é quilométrica. E por falta de espaço, prestamos homenagem a todos através destes aqui relacionados, aleatoriamente. Quem dubla quem: 

  • Ricardo Schnetzer: Richard Gere, Tom Cruise, Al Pacino, Nicolas Cage, Patrick Swayse
  • Danton Mello: Leonardo DiCaprio, inclusive em Titanic
  • Helio Ribeiro: Robert de Niro, Kevin Costner, Jeff Daniels
  • Miriam Fischer: Drew Barrymore, Nicole Kidman, Jodie Foster, Meg Ryan
  • Júlio Chaves: Mel Gibson (há mais de 30 anos), Tommy Lee Jones, Jeff Bridges
  • Márcio Seixas: Charlton Heston, Clint Eastwood, Morgan Freeman, Leonard Nimoy (Dr. Spock)
  • Darcy Pedrosa (já falecido): Jack Nicholson, Gene Hackman, Anthony Hopkins, Donald Sutherland
  • Júlio Chaves (Reprodução)

    Júlio Chaves (Reprodução)

  • Borges de Barros (Reprodução)

    Borges de Barros (Reprodução)

  • Ida Gomes (Reprodução)

    Ida Gomes (Reprodução)

  • Ricardo Schnetzer (Reprodução)

    Ricardo Schnetzer (Reprodução)

  • Maria Helena Pader (Reprodução)

    Maria Helena Pader (Reprodução)

  • Márcio Seixas (Reprodução)

    Márcio Seixas (Reprodução)

  • Orlando Drummond (Reprodução)

    Orlando Drummond (Reprodução)

  • Miriam Fischer (Reprodução)

    Miriam Fischer (Reprodução)

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