Dia Nacional de Combate ao Fumo: postos têm tratamento gratuito pelo SUS

Grupos para quem deseja largar o vício do cigarro se espalham por Friburgo, oferecendo terapia e adesivos
quinta-feira, 29 de agosto de 2019
por Alerrandre Barros (alerrandre@avozdaserra.com.br)
Fumar, hábito que vicia e mata (Fotos: Henrique Pinheiro)
Fumar, hábito que vicia e mata (Fotos: Henrique Pinheiro)

 

O posto de saúde Sylvio Henrique Braune, no Suspiro, iniciou nesta quarta-feira, 28, véspera do Dia Nacional de Combate ao Fumo, mais um grupo do Programa Nacional de Controle do Tabagismo. O atendimento é oferecido em postos de saúde e Unidades Básicas de Saúde (UBSs) de Nova Friburgo e tem atraído cada vez mais interessados em abandonar o hábito de fumar, seja por vontade própria, cobrança da família e dos amigos ou ultimato médico. 

Gilza Queiroz, de 66 anos, estava entre o grupo de cerca de dez pessoas que aguardavam, no posto do Suspiro, serem chamadas para a anamnese, etapa anterior ao início do tratamento que consiste em uma entrevista com o profissional de saúde para se traçar o estado de saúde do paciente e o perfil tabagístico dele. A dona de casa conta que decidiu procurar ajuda para deixar o cigarro por pressão do maridos e dos filhos. 

“Eu fumo há 50 anos”, destacou ela. “Fumo quase um maço de cigarro por dia. Não consigo parar. Tenho muita dificuldade. Uma vez, durante uma viagem a Florianópolis, tentei parar. Fiquei dez dias sem cigarro. Estava hospedada em um local onde não vendiam cigarro. Passei mal. Tive reações horríveis. Foi traumático”, disse ela. 

Há cerca de dois anos, a aposentada ouviu falar do tratamento oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS), por meio de uma propaganda na TV, tentou se inscrever no grupo que iniciava tratamento no Suspiro, mas não havia mais vaga. “O tempo foi passando, até que ontem, 27, lembrei do grupo e decidi ligar para o posto. Soube que poderia me inscrever hoje, 28. Vim e aqui estou. Vamos ver no que vai dar”, contou ela, animada. 

Iniciado em 2010, em Nova Friburgo, o programa é coordenado pelo psicólogo Leones Oliveira da Silva (foto). Ele desenvolve o trabalho, junto com uma equipe multidisciplinar, com foco na prevenção e no tratamento. As ações de prevenção são realizadas em paralelo com o programa Saúde na Escola, em que são transmitidas a crianças e adolescentes informações para que não iniciem o hábito de fumar. 

Adesivo e terapia em grupo

Já o tratamento é voltado para fumantes de qualquer faixa etária que desejam deixar o hábito. Desenvolvido em grupo, dura cerca de um ano. O tratamento inicia após a entrevista de anamnese, em que são avaliadas a dependência psicológica, comportamental e física do tabaco, além do estado de saúde em geral do paciente. Com essas informações, o profissional define o tratamento adequado para o fumante. 

Segundo Leones, são montados grupos de dez a 12 pessoas, em que são trabalhados questões em torno do tripé da dependência. A dependência física é tratada com suporte do adesivo de reposição de nicotina. Já a dependência psicológica e comportamental, tratada nas terapias de grupo.

“O adesivo é usado para a redução progressiva da nicotina no organismo. Fornecido gratuitamente pelo SUS, é aplicado durante a etapa em que chamamos de desmame, que é a dessensibilização da nicotina, que causa a dependência. Começamos com uma quantidade de nicotina, que vai de 21 a 7 miligramas, e vamos reduzindo”, disse o psicólogo, explicando que paralelo ao uso do adesivo, o profissional vai trabalhando, em grupo, outras questões comportamentais e psicológicas em relação ao cigarro. 

“É uma questão de hábito. Acabei de almoçar, tenho que fumar. Tomei um café, tenho que fumar. A gente vai criando com eles, no grupo, uma estratégia para que saibam lidar com o hábito nesses momentos. E a dependência psicológica. O fumante, geralmente, coloca o cigarro como um amigo, um ser, um ente querido. Por isso a ausência do cigarro traz uma tristeza. O cigarro funciona como uma bengala, válvula de escape. Trabamos isso para desconstruir essa ideia de dependência”. 

O psicólogo explicou ainda que o grupo se reúne uma vez por semana nas quatro primeiras semanas de tratamento. Os dois próximos encontros acontecem a cada 15 dias. E, depois, uma vez por mês, até completar um ano. “Se o paciente estiver abstinente do tabaco, ou seja, se conseguiu parar de fumar, ganha alta e um certificado. Eles esperam muito por esse momento. É uma vitória para eles”, contou Leones da Silva. 

Rede de atenção ampliada

O Brasil é referência global no combate ao tabagismo. Na última década, o país conseguiu reduzir em 40% o número de fumantes, segundo relatório divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em julho. Em Friburgo, a Secretaria Municipal de Saúde ampliou, nos últimos anos, a rede de tratamento, em especial nas regiões mais distantes do Centro. Profissionais foram capacitados e há uma cobertura de quase 60% do território, em locais bem estratégicos. Há grupos em Olaria, São Geraldo, Campo do Coelho, Centenário, Conselheiro Paulino, Lumiar, Nova Suíça, Riograndina, Amparo e Centro.

Leones conta ainda que a demanda por esse tipo de tratamento na cidade é grande. E que, em geral, três em cada dez fumantes conseguem parar de fumar na primeira tentativa de tratamento. “Não é uma porcentagem muito alta. Trabalhamos com redução de danos. Se um não conseguiu parar de fumar, mas adquiriu hábitos mais saudáveis, fez uma diminuição de danos, isso já um ganho”, contou. 

O público que procura ajuda nos postos varia. São homens e mulheres, na faixa dos 30 aos 60 anos. Menores de 30 anos aparecem raramente. O psicólogo orienta os interessados a procurarem uma unidade de saúde próxima de casa para se informarem sobre o programa, quando e onde deve ser oferecido. 

 

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