Depois de 53 anos separados, irmãos vivem reencontro emocionante

​Friburguense leu reportagem de A VOZ DA SERRA e descobriu que irmão mais novo estava à sua procura
segunda-feira, 13 de março de 2017
por Dayane Emrich
Haroldo e Aloisio
Haroldo e Aloisio

Poderia ser uma história de livro, filme ou novela mas, como já dizia o ditado popular, a arte imita a vida. E a vida tem dessas coisas. Aloisio Bindemann nasceu em Nova Friburgo, cidade da região serrana do Rio de Janeiro. Filho único, ele fazia parte de uma família de classe média do fim da década de 50.

Isso, pelo menos, era o que ele acreditava até os 13 anos de idade, quando descobriu que era filho adotivo. Na verdade, Aloisio Carlos Horbelt, nome dado por seus pais biológicos, nasceu em Vitória, capital do Espírito Santo, em 1959. Ele era o filho do meio de um total de cinco irmãos: Maria da Penha, Alfredo José, Inês Carla — e o caçula Haroldo, o outro protagonista desta história.

Como tudo aconteceu

Haroldo Horbelt, hoje com 55 anos de idade, conta que os pais se casaram em Vitória e que, alguns anos após a união, a família, que já tinha três filhos, se mudou para Belo Horizonte, Minas Gerais, devido a uma proposta de emprego recebida pelo pai para trabalhar na construção da barragem de Três Marias, também em Minas. Lá, eles tiveram mais dois filhos, entre eles, Haroldo.

“Pouco tempo depois de nos mudarmos de estado, meus pais tiveram um desentendimento e se separaram. Minha mãe voltou para o Espírito Santo, mas sem as crianças, pois meu pai não havia deixado que ela nos levasse. Vendo que não daria conta de criar cinco filhos sozinho, ele nos entregou para algumas famílias e, apesar de separados, tivemos sorte; fomos todos muito bem-acolhidos nas nossas novas casas”, disse Haroldo.

Ele conta que sabia que era adotado e que sempre teve vontade de reunir os irmãos. “Só conheci a minha mãe aos 17 anos de idade. Na época, um tio veio nos procurar e eu disse onde estavam a Maria da Penha e o Alfredo. Foi nesse dia também que decidi procurar pelo Aloisio, o único dos irmãos que eu não tinha ideia de onde pudesse estar. Na ocasião, eu descobri que minha mãe, Maria do Carmo, havia se casado novamente e tido mais três filhos: Jadir, Grima e Helkis. Meu pai, José Guilherme, também se casou outra vez e registrou outros dois filhos: Silvia e Wilson”, pontuou.

Já adulto, em busca do irmão desaparecido, Haroldo foi ao cartório de Vitória, onde Aloisio havia sido registrado e, para sua surpresa, foi informado que não poderia ter acesso ao registro e que seu irmão havia mudado de nome. Na ocasião, ele conseguiu apenas o nome do juiz e a comarca onde foi realizado o processo, isto é, em Nova Friburgo.

No dia 25 de dezembro de 2009, dia de Natal, Haroldo então saiu de moto, de Belo Horizonte, decidido a encontrar o irmão. Ao chegar em Nova Friburgo, no entanto, não teve muita sorte. “Era férias e todas as repartições públicas estavam de recesso. Tentei a secretaria de Educação, quartel do exército, fórum e nada. Foi então que decidi procurar os veículos de comunicação. Fui a uma rádio e ao jornal A VOZ DA SERRA, onde fui muito bem recebido. Contei o caso e minha história foi publicada no dia 30 de dezembro de 2009, com o título ‘Professor procura irmão desaparecido’. Como não havia mais o que fazer, vim embora para Belo Horizonte e passei os últimos anos pensando em voltar a Friburgo”.

Enquanto isso, em Friburgo

Enquanto Haroldo sonhava com o dia que encontraria o irmão, Aloisio também planejava a busca pela família biológica. “Vim para Nova Friburgo em 1964, com cinco anos de idade. Aqui, sou conhecido como Hans Bindemann. Na adolescência fui instrutor de Judô na academia Sol Nascente, do Prof. Yamaguchi. Estudei no Cêfel, no Anchieta e na Associação Educacional e Cultural de Nova Friburgo (AECNF). Aos 13 anos fiquei sabendo que era adotado e que tinha mais quatro irmãos. Eu era o único filho dos meus pais adotivos, um casal incrível, que me deu tudo que podia, principalmente amor. Apesar disso, me sentia só, pois sempre desejei ter irmãos. Acho que meu subconsciente sabia que eu tinha vindo de uma família grande”, brincou.

Mas, a vida foi seguindo e os planos de encontrar a família biológica sempre prorrogados. “Essa procura foi freada durante toda a vida pelo medo de decepção, afinal, o reencontro poderia não ser bom.  Até mesmo porque a vida inteira eu acreditei que ninguém tivesse me procurado”, disse Aloisio.

O reencontro

No último dia 24 de fevereiro, pesquisando por seus parentes na internet, Aloisio encontrou a matéria que havia sido publicada por A VOZ DA SERRA sete anos antes. A reportagem contava detalhes da história e indicava o possível paradeiro de Aloisio, além de e-mail e telefones para contato.

Depois de longos 53 anos, o primeiro contato entre os irmãos, regado a muita comoção, aconteceu logo no dia 25 de fevereiro, por telefone. Haroldo conta que ficou muito preocupado, com medo de que estivesse sendo enganado. “Em princípio fiquei muito nervoso sem saber se seria de fato meu irmão ou mais um golpe de internet. Depois de conversarmos pelo WhatsApp e pelo telefone, me desloquei para Friburgo no domingo, 26, levando um sobrinho e meus dois netos”, disse Haroldo, acrescentando que: “Quando nos vimos não tive a menor dúvida de que era meu irmão. Foi um dia de muitas emoções; o maior presente que eu poderia receber. Não tenho palavras para descrever a felicidade que foi encontrar o meu irmão. Há dois anos consegui reunir as minhas irmãs e meu pai, que também não se viam há mais de 40 anos, agora pude achar meu irmão”, exclamou.

Aloisio também atribui o mérito do reencontro ao caçula. Ele conta que tudo só foi possível por causa da persistência do irmão e da matéria de A VOZ DA SERRA. “Haroldo me procurou a vida toda, e graças ao seu empenho é que pude descobrir a entrevista que ele deu ao jornal, em 2009”.

Além de muitos abraços, lágrimas e uma longa conversa, durante o encontro, realizado no sítio de Aloisio, em Nova Friburgo, os dois fizeram planos para o futuro e garantiram que, a partir de agora, manterão o contato. “Sozinho? Nunca mais! Somos 14 irmãos, uns 30 sobrinhos, vários sobrinhos netos, primos, tios, etc. Uma família grande que pretendo conhecer em breve”, disse Aloisio, rindo. Já Haroldo destacou: “Acredito que unir a família seja minha sina. Fui recompensado por nunca desistir do meu irmão. Estou muito feliz e só peço a Deus que nos dê muito tempo para podermos nos conhecer melhor e viver tudo aquilo que não tivemos oportunidade”.

Família

O pai de Aloisio e Haroldo, José Guilherme Horbelt, hoje aos 85 anos, ainda mora em Belo Horizonte, onde estão também a irmã mais velha, Maria da Penha, com 61 anos de idade, duas filhas, três netas e uma bisneta; Alfredo José, de 59 anos, com três filhos e dois netos; Inês Carla Filgueira, de 56 anos, sem filhos; e Haroldo Horbelt, de 55 anos, com um filho — em homenagem ao irmão — chamado Aloisio, além de três netos.

A mãe, Maria do Carmo Costa Horbelt, aos 80 anos, reside em Vitória, e

Aloisio Bindemann, de 58 anos, pai de um casal, atualmente vive no Rio de Janeiro. Ele se mudou de Nova Friburgo em 1980.

Confira aqui a matéria publicada por A VOZ DA SERRA em dezembro de 2009

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