De onde não se roubam bicicletas - 22 de agosto

Por Diego Vieira
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
por Jornal A Voz da Serra

“Creo que no te quiero,

que solamente quiero la imposibilidad

tan obvia de quererte

como la mano izquierda

enamorada de ese guante

que vive en la derecha.”

de um dos Otros cinco poemas para Cris,

de Julio Cortazar

Ainda é meu pesadelo, sabe? Voltei a Macuco nestes últimos finais de semana. Meu canto. Um pouco desprezado nestes tempos, mas ainda assim, o lugar onde até as poças nas calçadas me são familiares.

Em tempos de estranheza, foi bom experimentar um pouco do velho caso de amor e ódio que tenho com essa cidade perdida, esquecida e que a maioria das pessoas só conhecerá de passagem (e quase não se pode lamentar por elas). É verdade que retorno a Macuco em estado fuga, mas quem não faria o mesmo? Se pudesse, me afundaria em outro lugar, mas, como as diferentes lições e experiências vêm ensinando, não há muito o que se fazer, assim, por enquanto, que esta seja a minha caverna – depois, quem sabe, a Bahia, ou o sul do país, ou até mesmo as outras opções, menos charmosas.

Assim, retomo alguns planos. O que também não é difícil, já que é melhor encarar esse processo, do que lidar crua e duramente com as outras dores que impulsionam estes momentos. E estas linhas, diga-se de passagem.

Voltei a Macuco na intenção de me trancar um pouco com álcool, séries de tv, alguns livros e música decente. O plano foi executado perfeitamente.

Mas também é uma fuga, senhores. Não podemos nos esquecer disso.

Felizmente, eu vi filmes o suficiente para aprender que as fugas devem ser sempre proveitosas1 .

O que fiz?

Antes, uma lição de história

(ou uma bela desculpa para eu falar de mim mesmo) :

Uma das primeiras histórias em quadrinhos que escrevi, A Fera de Macuco, narrava o aparecimento de um lobisomem em minha cidade natal nos idos dos anos setenta. Na real, a coisa toda não passou de um bem elaborado joguete que chegou até a trazer a mídia para o local (e inspirou o Reginaldo Faria a filmar seu Quem tem medo de lobisomem?). Em minha história em quadrinhos que, se desenhada, teria 150 páginas, a coisa toda não passava de uma grande macumba provocada pelos próprios moradores da cidade. Um caso de mentempsicose que se espalhou, anos a fio, por tudo que escrevi. A Fera de Macuco ganhou um Buraco no Rio (com o qual ganhei um concurso lusitano de contos de horror em 2005, e que deve se tornar um roteiro filmado em algum momento do futuro), Cidades Fantasmas (um roteiro infilmável e um tanto quanto verborrágico, mas que ainda tem seu brilho para mim), As pedras da casa de Pedro (outro roteiro, mas duvido que infilmável), e mais uns roteiros de quadrinhos, como Máquina de Escrever, A Bela Máscara, 2085 (que nunca terminei, sejamos sinceros – mas que em algum momento deve se tornar um romance), Pássaros Artificiais.

Tudo isso ainda distante de ser publicado. Alguns a caminho, mas ainda distantes.

Mas ainda tenho histórias para contar, no caso de terem dúvidas. E com um pulso bem mais firme do que apresento aqui semanalmente, podem crer.

E isso é outra coisa que estava fazendo em Macuco. Acertando detalhes para esta próxima coisa, esta próxima balada que me tomará a vida nos momentos livres, mas, podem apostar, me devolverá o gosto de estar vivo.

(Sim, ando desgostoso. Espero que não se importem de dizer, mas nem é de tão mau gosto assim.)

De forma que, generoso, até solto algumas pílulas (as menos escabrosas, relaxem – apesar de ser portador de todo o mal gosto do mundo, ainda sou bastante comedido (e faz tempo desde que vomitei sobre algum desconhecido – amigos não contam!)).

Então, senhoras e senhores, enquanto não vêm a magnus opus, fiquem com um pouco do ocus pocus do maluco (com epígrafe escolhida, estão lá Borges, José Régio e Jean Genet), estes tabletes de veneno que chamei de O Último Vagão:

Assim, sinto-me completamente são, sentindo o sol sobre mim, observo o resto do mundo, as pessoas misturadas aos de uniforme branco que já dominavam as ruas, nem súdito nem rei, apenas caminhando através das esferas que brotam ao meu redor – entro num botequim, peço uma dose – esta primeira, para matar a saudade, desce queimando, corta o fundo da minha espinha e se esparrama por todo o corpo, uma nuvem surge diante dos meus olhos. A segunda dose é mais leve. A terceira é como água.

(...)

Aliso a mão dela pousando os dedos sobre a cicatriz que toma toda as costas de seu punho – recupero, através do toque, todo o tempo distante dos cabelos desgrenhados presos àquela pele rosada.

Não sei se é bom. Estou pensando em novos formatos – atirando para todos os lados. Vou escrever, um camarada irá desenhar, e depois de publicado, vocês dão a opinião. Por enquanto, acompanhem a esquisita jornada: http://www.interior intimado.blogspot.com/, e no Twitter: cronopiodemim.

Fiquem bem. Eu estou fazendo a minha parte.

Ah, sim. O título! Cara, já estava esquecendo.

Macuco é o único lugar do mundo onde você pode abandonar sua bicicleta por horas, dias até, bem na praça, no centro da cidade, e ninguém vai tocar. Incrível.

(Claro que a bicicleta do meu pai anda já um bocado detonada, e que no último grande caso de roubo de bicicletas da cidade, os envolvidos eram, em grande parte, colegas meus, mas eu não tenho nada com isso. Juro!)

1 Se querem saber dos motivos de minha fuga, adianto que está tudo lá na epigrafe. De resto, fiquem com o texto corrido, é muito mais interessante que meus desastres amorosos.

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