Cremerj diz que rim entregue a paciente em galão é “descaso”

Entidade que representa médicos no Estado abriu investigação, após paciente ficar quatro meses sem saber da gravidade de tumor
sábado, 03 de agosto de 2019
por Alerrandre Barros (alerrandre@avozdaserra.com.br)
Cremerj diz que rim entregue a paciente em galão é “descaso”

O Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj) instaurou procedimento para apurar a forma como o laboratório do Hospital Municipal Raul Sertã, em Nova Friburgo, armazenou para exame o rim de um paciente que teve o órgão retirado devido a um tumor. O órgão ficou quatro meses dentro de um galão de suco de polpa de maracujá, e ainda foi devolvido à esposa do paciente sem a realização do exame. O paciente ainda não sabe se o tumor é maligno ou benigno.

“Os fatos narrados no referido hospital são um exemplo de descaso, causa de severos danos à integridade do paciente e um enorme atraso ao início da terapêutica (tratamento contra a doença). Portanto, cabe uma averiguação cuidadosa do acontecido”, disse a entidade em nota divulgada nesta sexta-feira, 2.

No último dia 19 de julho, Maristher Fukuoka saiu do Hospital Raul Sertã com o rim do marido nas mãos, dentro de um galão plástico de suco de frutas. O órgão havia sido removido do marido dela, Sebastião Mory, durante uma cirurgia realizada na unidade, em março, após a descoberta de um tumor. A mulher disse que o órgão retirado seria encaminhado para biópsia no Rio de Janeiro, mas o rim nunca saiu do hospital. Passados quatro meses da cirurgia do marido, Maristher voltou ao Raul Sertã e exigiu uma resposta a respeito do resultado da exame. 

“Briguei, falei muitas coisas que a responsável não queria ouvir, e num instante o rim apareceu nas minhas mãos”, desabafou a mulher, contando que a responsável pelo laboratório no Raul Sertã entregou-lhe o rim dentro de um pote plástico com rótulo de polpa de maracujá. “Ela falou que se eu quiser procurar o Ministério Público, eu posso ir. E dali eu saí desesperada, dizendo: O que eu vou fazer com isso aqui?", contou.

A mulher relatou que saiu do hospital com o rim do marido nas mãos e procurou uma clínica particular na Rua General Osório, no Centro, que cobrou R$ 600 para realizar o exame no órgão. O resultado deve sair no próximo dia 14 de agosto. Até hoje, o marido dela não sabe se o tumor presente no rim é benigno ou maligno. Essa informação, a ser revelada pela biópsia, é fundamental para que ele possa iniciar o tratamento correto. 

Após a repercussão do caso, no último dia 26 de julho, a Sociedade Brasileira de Patologia (SBP) condenou a forma como o rim foi armazenado e disse que ia acionar o Cremerj e a Procuradoria Geral do estado. Na última semana, o conselho que representa os médicos do estado afirmou que instaurou procedimento para apurar o caso. Conforme o Cremerj, os laudos da patologia, também chamados de anatomopatológicos, são importantes porque orientam os médicos sobre as características biológicas da lesão ou do tumor e qual tratamento deve ser recomendado ao paciente. 

Armazenamento correto

“Por estes motivos, o material retirado do paciente (biópsias ou peças cirúrgicas) deve ser encaminhado imediatamente ao Serviço de Patologia interno ou externo do hospital, devidamente rotulado, acondicionado e acompanhado de requisição assinada e carimbada pelo médico, onde conste, além da identificação do paciente e da peça retirada, uma breve história clínica que sirva como orientação ao patologista”, disse o conselho. 

O Cremerj explicou ainda que o acondicionamento de órgãos exige diversos cuidados. “Devem ser colocados, imediatamente, depois de retiradas do paciente, em um invólucro adequado que permita o acréscimo de fixador (formol 10% V / V tamponado) em quantidade dez vezes superior ao volume a ser fixado. Este produto químico preserva os tecidos e as células, evitando sua autólise, além de provocar destruição de agentes patógenos, permitindo seu transporte, conforme orienta a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)”. 

Segundo o Conselho Regional de Medicina do estado, preservar a amostra é fundamental para se alcançar a qualidade necessária à análise do patologista. Inclusive, para poder realizar estudos imuno-histoquímicos (fundamental para diagnóstico e tratamento), as normas estabelecem um tempo mínimo de 8 horas submergido no fixador e no máximo de 72 horas, o equivalente a três dias. 

“A responsabilidade pelo correto acondicionamento e encaminhamento das peças cirúrgicas é compartilhada entre o cirurgião que faz procedimento e o responsável pelo centro cirúrgico. Neste, devem existir normas escritas sobre os procedimentos a serem realizados para o acondicionamento das peças cirúrgicas, com documentação sobre a retirada e o encaminhamento à patologia”, acrescentou o Cremerj. 

O que diz a prefeitura

Procurada, a Prefeitura de Nova Friburgo informou que está com demanda pendente por 230 exames no laboratório, devido ao desligamento do funcionário que realizava o serviço. O governo disse ainda que já providenciou a contratação de um novo profissional e, em breve, o serviço deve ser normalizado. Comentou também que embora não fosse o ideal, o recipiente onde o órgão foi armazenado estava esterilizado e, portanto, limpo.

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